Capítulo III – Será possível haver algo melhor?

Desde o dia do telefonema da srª Teresa que o meu mundo anda numa roda viva. Aceitei a entrevista, sem fazer a menor ideia, se conseguiria ou não ir. Como iria conseguir estar as 10h30 na Casa do Impacto se tenho todo o meu tempo tomado com os três empregos?

No entanto são exactamente 10h15 de quarta-feira e estou a frente da porta da Casa do Impacto. Sabe que, por vezes, parece que o mundo conspira a nosso favor, e desde o telefonema que muita coisa aconteceu para eu conseguir estar aqui hoje. Tudo começou logo no mesmo dia. Subi apressadamente até ao meu piso e sentei-me no meu cubículo. Faltava somente 1 minuto para as 18h00 e tinha que, pontualmente, começar a fazer chamadas as 18h00. As supervisoras que gerem o meu piso não são flor que se cheire e estão sempre a controlar tudo. Tinha acabado de sentar quando uma das supervisoras chega ao pé de mim e pede que a acompanhe até a sala do chefe das supervisoras. “hã, como? Acompanhá-la?”, “sim. Você não é a Maria Conceição?”, “sou. Mas houve algum problema?”. “Não sei, disseram-me somente para lhe levar a sala do chefe”. Estava em pânico. Nunca antes havia sido chamada a sala do chefe e ouvi muitas histórias contadas na sala do café que quem entrava lá, era para ser mandado embora.

Levantei com as pernas a tremer. Tinha o coração a bater tão forte e tão acelerado no peito, que parecia um tambor no meio de uma parada militar. Segui a supervisora e a medida que passava pelos outros cubículos via os olhos dos colegas virarem para mim e em seguida balançarem a cabeça como se dissessem “Já foste!”.

A supervisora bateu na porta de vidro e ao olhar para dentro vejo um homem na casa dos seus 50 anos, mas que pareciam 60 anos devido ao cabelo que escasseava na cabeça mostrando uma careca considerável só um uma faixa de cabelo muito curta entre o pescoço e a linha das orelhas e uma barba de três dias pouco cuidada e com imensos chumaços de pelos brancos espalhado pelo rosto.

O chefe das supervisoras fez sinal para entrarmos. A supervisora abriu a porta, entrou primeiro e disse “dr. Mateus, está aqui a Maria Conceição, que o senhor pediu para eu chamar”. Fiquei a conhecer o nome do chefe. Todos temiam este homem e toda a gente o tratava por “Padrinho” por causa do ar de mafioso que tem. O dr. Mateus fez sinal para eu me sentar na cadeira que estava a frente da sua mesa e quando a supervisora ia para se sentar na outra, ele vira para ela e diz “Obrigado. Agora pode se retirar por favor”. O olhar que a supervisora fez na minha direção mais pareciam flechas, de tanta raiva. Não compreendi o motivo dessa raiva. Estava mais preocupada com o que iria acontecer comigo do que os sentimentos de raiva dela.

O dr. Mateus esperou que a supervisora saísse e garantir que a porta estava fechada. Durante alguns segundos ele ficou a olhar para mim sem nada dizer. Parecia estar a estudar a minha alma. Confesso que tremia de medo e tinha as palmas das mãos a transpirar. Passara somente alguns segundos, mas para mim eram horas, quando ele abre a boca e começa a falar comigo.

“O seu nome completo é Maria Conceição Martins, certo?”, com a voz sumida dentro da garganta respondo “sim, sou eu.”, “muito bem. Posso tratá-la por Maria ou prefere Maria Conceição?”, “pode ser Maria, por favor”. “Perfeito. Pedi para lhe chamar pois quero abordar uma situação que me foi enviada e que diz respeito a si.” Ouvir estas palavras deixaram-me com a sensação que estava a cair num poço sem fundo. Estava a beira de ter um colapso nervoso. Somente tive a capacidade de responder “como assim?”.

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Tendo noção do quanto eu estava nervosa, o dr. Mateus vira-se e me diz: “Maria, quero primeiro lhe dizer que não a chamei até ao meu escritório para lhe mandar embora. Conheço bem a minha fama, e peço-lhe por favor, fique tranquila. Não é por isso que está aqui.” Se já estava confusa, então agora é que tudo tinha ficado do avesso. Afinal tinha uma situação relacionada comigo, mas o quê? Pelo menos as palavras dele me deram, por uns instantes, algum alívio. Senti o coração bater um pouquinho menos forte.

Foi ai que ele começou a falar: “Não sei se sabe, mas usamos por vezes um serviço de cliente mistério para aferir se os nossos operadores cumprem as regras e condições que lhes pedimos. Numa das vezes que usamos o serviço, o cliente foi parar a sua mesa e o feedback que recebemos foi muito positivo. Para validar que não tinha sido um acaso, no último mês usamos vários tipos de cliente mistério para avaliar se a sua atitude tinha sido um acaso ou se era consistente. Verificamos que a sua forma de agir, e reagir, a certas provocações foram exemplares e tratou-as com muito profissionalismo. atuou sempre com muita educação e tentou sempre ajudar o cliente a obter o melhor produto, sem usar subterfúgios baratos ou enganadores. Como sabe, neste tipo de trabalho, em callcenter, temos sempre pessoas a entrar e sair e poucos são os que aguentam ficar aqui mais de 6 meses. O facto de estar a trabalhar connosco há mais de um ano e o resultado da avaliação positiva recebida no cliente mistério, fez com que as pessoas dos Recursos Humanos me indicassem o seu nome para uma vaga de supervisora que temos disponível.”

Ouvia aquelas palavras mas não acreditava no que estava a acontecer. Não consegui verbalizar nenhuma palavra. Estava com uma cara de parva a olhar para o dr. Mateus e com a boca meio aberta. Ele olha para mim e pergunta “Maria? Está tudo bem?”, respondo “hã? Sim. Claro. Está tudo bem. Sabe o dr. Mateus me apanhou completamente desprevenida. Não sei o que lhe posso dizer. Talvez, obrigada?”. O dr. Mateus levantou o lado esquerdo do seu rosto a ensaiar um sorriso, mas que durou poucos segundos. “Então é assim Maria. Há, como disse a pouco, uma vaga disponível para o lugar de supervisora. Este lugar implica uma maior responsabilidade e um maior rigor na gestão dos operadores ao seu cargo. Alguma vez geriu pessoas no passado?”, só soube responder, mais uma vez, um sumido “não”, lá do fundo da garganta.

“Hum, compreendo. Se aceitar a promoção, posso pô-la com uma das minhas mais antigas supervisoras, e poderá acompanhá-la durante umas duas semanas para aprender como é gerir os operadores. O que lhe parece?”. A minha cabeça rodava com tanta coisa a acontecer num só dia. Há menos de uma hora tinha acabado de aceitar uma entrevista na EAME e agora estava sentada a frente do chefe das supervisoras a ser convidada para aceitar uma promoção. Estava a voltar a mim mesma e, saido não sei de onde, a única coisa que disse com alguma convicção na voz foi “mas quais sãos as condições salarias que implica aceitar a promoção?”. O dr. Mateus assumiu uma postura mais hirta na cadeira e avançou em crescendo para frente na minha direção, parecia que iria atacar-me quando abriu a boca e disse “Muito bem. Estava a ver que não iria fazer esta pergunta. Actualmente o seu salário é de 350€ acrescido de 0,5% de comissão sobre a primeira mensalidade do serviço vendido. Estive a ver e, em média, o que leva limpos para casa ronda os 550€. No caso das supervisoras, o salário ronda os 750€ mensais e acresce uma comissão de 1% do primeiro ano de contrato fechado pelos operadores a seu cargo. Para lhe dar uma ideia, em média, uma supervisora que consiga ter uma equipa bem motivada e com uma margem de vendas bem consistente, consegue receber por mês cerca de 1200€ mensais limpos”

Não estava a acreditar no que estava a me acontecer. Aceitar esta promoção implicava simplesmente o dobro e mais um pouco do valor que ganhava actualmente. Com esta nova função poderia perfeitamente abandonar o trabalho de limpeza no escritório e assim ganhar um pouco mais de vida e tempo para mim.

No meu rosto nascia um sorriso de felicidade e sem a menor hesitação, enchi o peito e respondi: “dr. Mateus, aceito sim a promoção. Obrigada por confiar em mim. Espero poder retribuir, com o meu trabalho, a confiança que está a depositar em mim. Quando posso começar?”, a resposta foi logo, “Hoje.” Neste momento ele pegou no telefone e ligou para a sua secretária a dizer para chamar a srª Lurdes até ao gabinete dele. Assim que ela chegou, ele virou para a srª Lurdes e disse: “eis a nossa nova supervisora em substituição da que se foi embora. Por favor apresente-lhe a equipa de operadores que ela irá gerir e nas próximas duas semanas, ela irá ficar ao seu lado para aprender tudo o que necessita para gerir uma equipa de operadores.” A srª Lurdes olhou para mim com um ar severo, mas após assimilar o que o dr. Mateus disse, virou-se para mim e disse “venha lá para começarmos. Tens muito que aprender e eu não tenho muito tempo para ensinar.” Ainda ouvi o dr. Mateus dizer enquanto fechávamos a porta, “trata bem dela srª Lurdes.” E a resposta foi lacónica “claro que sim, dr. Mateus”.

Saímos da sala em direção a zona dos operadores, os mesmos olhos que antes me cruxificaram, agora estavam com um ar de curiosidade. Começava uma nova fase da minha vida e estava muito confiante. Tudo iria ser diferente, a começar por amanhã de manhã quando chegar ao escritório para fazer limpezas.

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    Coach Wilques Erlacher

    ACC Coach Credenciado pela ICF. Especializado em Coach de Desenvolvimento & Metafórico e Presidente do Conselho Fiscal da ICF Portugal. Há mais de 20 anos que trabalho em funções relacionadas com Marketing, Vendas Corporativas, Desenvolvimento de Negócios, Gestão de Clientes, Formação, Mentoria e Consultoria em Vendas. O meu lema é: “Coaching não é para quem precisa, é para quem quer ser melhor” Os meus contactos são: email: we@wilqueserlacher.com || Skype: w.erlacher || Tel: +351 932 558 558

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