Capítulo X – A semana de todas as mudanças

Terminada a inscrição e apresentação do meu projecto no site do ‘adição’ era tempo agora para reflectir sobre a proposta que o Jorge me tinha feito. Agora ali sozinha em casa, tinha de por numa folha de papel os prós e contras de uma potencial mudança na minha vida. Assim foi, peguei numa folha de papel e coloquei do lado esquerdo uma coluna com o título vantagens e na direita desvantagens de ir viver com o Jorge. Este foi o resultado.

VantagensDesvantagens
Financeiras
– Economia no aluguel, água, luz, televisão.
– Ajuda na elaboração de um plano de projecto financeiro da Maria Costureirinha
– Despesas com comida e outros bens de primeira necessidade ficam reduzidos a 50%
– Ajuda no transporte e mobilidade  

Emocionais/Pessoais
– Gosto de estar junto dele
– Tenho apoio e sinto-me protegida
– Companheirismo
– Bom sexo
– Mudança do ‘Eu’ para ‘Nós’
– Apoio emocional e carinho
– Ele me faz rir e sentir amada
– Partilhar toda a minha vida
Financeiras
– Não encontro nenhuma.                  






Emocionais/Pessoais
– Perder o meu espaço e a minha própria forma de viver
– Caso haja uma briga fico fragilizada por não ter o meu espaço.
– Relação é muito recente
– Nunca o vi zangado. Como será?
– Perder parte da minha vida

A medida que escrevia tomava consciência que efectivamente tinha mais pontos a favor do que contra. Mas o que mais me deixava pensativa era o facto de abandonar o meu apartamento e perder o meu espaço. Viver uma vida a dois exigiria uma quantidade de cedências mútuas.

Ainda era dia 5 de janeiro e teria que esperar pelo fim do prazo da candidatura no dia 7 até ter a certeza que iria ser escolhida. Levantei-me da mesa e fiquei a olhar para a folha de papel a minha frente com as duas colunas preenchidas. Pensei que talvez se me afastasse um pouco poderia ter uma visão diferente sobre a decisão a tomar. Enquanto olhava, milhares de imagens passaram na minha cabeça, sobre tudo o que me tinha acontecido nos últimos dois meses. A quantidade de avanços e recuos que tive fizeram de mim uma outra mulher. A proximidade do Jorge teve um impacto profundo na forma como via e enfrentava as situações. A ideia que me deu de pedir férias foi única e, como uma visão de fora, pode nos dar uma perspectiva diferente quando estamos enterrados no problema. Sorri e abanei a cabeça afirmativamente. Quer seja escolhida ou não, vou em frente. Vou viver com ele. Estava tomada a decisão, mas não iria falar ainda. Tinha outra situação para resolver, ainda antes de lhe comunicar.

Fui para a casa de banho tomar um duche pois já estava a aproximar as cinco da tarde. tinha de ir para o trabalho e falar com o temível dr. Mateus para lhe pedir quinze dias de férias a começar em menos de uma semana. Vesti umas calças de ganga e por cima uma blusa de caxemira ‘chinesa’ que comprei numa loja perto de casa, calcei uns ténis e por cima vesti o meu casaco mais quentinho – que chamo de cobertor por ser feito de um tecido grosso e macio – e saí para o trabalho. Mal abri a porta do prédio, vejo o Jorge sentado nas escadas que dão para a rua, a minha espera.

“Ué, que fazes por aqui?”
“Então! Estou a espera de ti para te levar para o trabalho.”
“Porque não tocaste na campainha para subir?”
“Preferi esperar-te aqui. Este fim de tarde de janeiro está agradável e não queria estar a demonstrar qualquer tipo de pressão sobre a tua decisão. Vá, vamos lá. Não vim aqui para ficar a conversar contigo na porta do prédio sobre a nossa  vida. Tenho o carro ali na esquina, vamos?”

Descemos as escadas de mãos dadas e até ao carro ficamos calados. Não estava a espera de o ter ali. Desde a manhã que falamos muitas coisas e havia muita coisa por decidir. Seguimos até ao carro, entrei e o silêncio reinava entre nós, mesmo estando sentados dentro do carro a menos de meio metro um do outro.

“Desculpa.”
“Desculpa de que Jorge?”
“Não devia ter vindo. Sinto que estas apreensiva.”
“Não é nada disso. Estou somente preocupada. Fiz a inscrição no ‘adição’, mas tenho algum medo de chegar ao emprego, pedir férias e depois o projecto não ser aceite. Tenho a cabeça cheia de dúvidas. E se não passar? E se o dr. Mateus não me der férias? E se tu…”
“dr. Mateus?”
“Desculpa. O dr. Mateus é o chefe máximo das supervisoras. É um homem com uma cara fechada e com um ar muito sério e zangado. Lá no trabalho todos o chamam de ‘Padrinho’ a gozar que ele é o ‘Dom Corleone’.”
Ele riu e disse “Ok. Continua. Estavas a falar e se eu… o quê? Vá continua a falar e vai ver que irá fazer bem para desanuviar a pressão que estás a sentir.”
“São muitos ‘e se’ que tenho de ponderar. São decisões que depois de tomadas não vou conseguir voltar atrás. Estou tão insegura.”
“Maria, tal como te disse hoje de manhã, não precisas estar a tentar comer este elefante todo de uma vez. Deixa as coisas fluírem ao ritmo que elas tiverem. Tu não vais conseguir saber nada antes do dia 8. Por isso não vale a pena estares aflita. Como diz o ditado, quem morre de véspera é Peru de Natal. Vou te pedir uma coisa. Não decida nada nem tome nenhuma iniciativa, antes do dia 8. Deixa vir o resultado da tua candidatura. Podes, e deves, ir pensando nas várias opções para ir se preparando. Por que não fazes numa folha de papel uma listagem das vantagens e desvantagens disso tudo?”

Olhei para o rosto dele e comecei a sorrir. Efectivamente esta pessoa que ia ali ao meu lado começava a me conhecer. Respondi que sim, que iria fazer a tal lista. Soubesse ele que isso já estava feito e que até já tinha tomado uma decisão. Mas não era ali o momento para isso. O carro já estava a descer a avenida Álvaro Pais e tinha de ir para o trabalho. Quando ele parou o carro, inclinei-me e lhe dei um beijo na boca para me despedir. Quando ia afastar-me ele me puxou pelo casaco e me deu um beijo mais profundo, molhado e cheio de carinho. Sentia o coração acelerado e só me apetecia pular para cima dele e fazer sexo ali mesmo no carro. Desci do carro ainda meio tonta e subi para o trabalho. Não iria falar com o dr. Mateus naquele dia.

No dia seguinte, mais uma vez acordara na casa do Jorge. Ele tinha ido me buscar ao trabalho e viemos para a casa dele. Na verdade continuamos de forma mais debochada a parte que faltou depois daquele beijo no carro. Eram cerca das nove da manhã e estávamos a tomar o café na cama… novamente. O Jorge só iria ter alunos perto das dez e meia e por isso estávamos ali na ronha sentados na cama a comer uns ovos mexidos com tomate, torradas, uvas, laranja descascada e chá preto quando o meu telefone tocou. Não conhecia o número que me ligava. Atendi e do outro lado uma voz feminina perguntava se eu era a Maria Conceição Martins. Respondi que sim e foi então que ela se apresentou.

“Olá Maria, sou a Margarida e trabalho com o José Marques no projecto ‘adição’. Lembra-se de mim?”

Senti os músculos do corpo todos retesarem e dei um pulo da cama. O Jorge ficou a olhar para mim com um ar espantado e a perguntar se estava tudo bem com o polegar levantado. Respondi que sim com a cabeça e caminhei em direção da janela sem sequer me preocupar que estava somente em cuecas, sem sutiã e que os vizinhos pudessem ver alguma coisa.

“O..olá Margarida. Sim, lembro-me bem de si. Está tudo bem? O que posso ajudar?”
“Para já, por favor, pode tratar-me por tu. Não te importas que faça o mesmo?”
“Claro que não. Desculpa. Sim o que posso ajudar-te?”
“Queria falar contigo sobre a tua candidatura ao programa ‘adição’. Tens alguns minutos que possas dispensar para falarmos agora?”

As minhas pernas tremeram. O meu coração, que já estava acelerado, agora batia como se quisesse sair do meu peito. Respondi que sim, que podíamos falar.

“Quero primeiro dizer-te que esta nossa conversa serve somente para eu validar alguns pontos da tua candidatura. Estou a fazer isso com todos os concorrentes. Assim sendo, tenho aqui três questões que queria a tua resposta.”

A primeira questão que ela colocou estava mais uma vez relacionada com uma putativa localização do negócio. Se já tinha pensado em algum local onde o negócio pudesse ter o resultado expectável. Onde já tinha visto este filme. Enquanto ouvia a questão, a minha mente fora novamente transportada para o momento onde estava sentada primeiro a frente da drª Celestina e do dr. Pedro e mais tarde à frente do júri na Casa do Impacto a me questionar exactamente a mesma coisa. Porque necessitam tanto desta validação? Eu não tenho nenhuma forma de saber, a partida, onde pode ser o melhor local para o meu negócio. Sou básica, nunca fiz estudo de mercado ou análise de potenciais locais. Quero primeiro validar se o negócio tem pernas para andar. Desta vez investi numa resposta mais firme e mais determinada. Afinal não tinha nada a perder.

“Bem Margarida, na verdade a única forma que tenho de responder a tua questão é dizer-te que não faço a mínima ideia onde poderia lançar o meu negócio. Nunca fiz estudo de mercado ou de localização. Se não ter uma resposta vai me fazer ficar fora do processo, então desculpa. Não sei mesmo.”

Por alguns segundos do outro lado da chamada fez-se silêncio. Foi como se ela não esperasse tal resposta e tivesse sido apanhada desprevenida.

“Sabe uma coisa Maria, quero sinceramente te agradecer pela resposta. Senti que ela foi mesmo verdadeira. Normalmente quando faço esta pergunta aos concorrentes recebo grandes discursos e longas tentativas para me passarem uma imagem altamente confiável. Gostei da tua resposta.”

Agora quem ficara em silencio era eu. Joguei no que vi e acertei no que não vi. Agradeci e esperei pela segunda questão que estava relacionada com a forma de financiamento para o arranque do negócio. Desta vez para esta resposta eu estava preparada e respondi que tenho as máquinas de costura que eram da minha mãe e do negócio que ela tinha com a minha tia e que, para o arranque do projecto o investimento seria somente em material para fazer os arranjos, tecidos e um quadro para poder escrever enquanto ensinar as pessoas a costurar.

Por fim veio a terceira pergunta que estava relacionada com a minha indisponibilidade depois das 18h00, com base na conversa que tinha tido com eles em meados de dezembro. Esta então foi canja. Respondi que teria total disponibilidade 24 horas por dia durante todo o período do curso sem nenhum problema. Depois desta terceira resposta o meu coração já voltara a bater normalmente e a minha cabeça pensava com mais discernimento sobre tudo. Estava confiante a medida que falava com a Margarida. A chamada então chegara ao fim com a promessa de voltar a ter noticias dentro de dois dias. Ela me explicou que iriam tomar a decisão no dia 8 de janeiro de manhã, comunicar a todos que se candidataram neste mesmo dia à tarde e que o curso iniciaria no dia 11 de janeiro, segunda-feira as 09h00 no local onde fui ter com eles em Alcântara. Desliguei a chamada e quando olhei para o lado tinha o Jorge sentado a beira da cama com os olhos fixos em mim, a boca meio aberta totalmente espantado com tudo o que estava a acontecer.

“Mulher, onde foste arranjar tanta convicção? Foste brilhante. Estou maravilhado com a tua capacidade de reação.”

Sorri e até senti as bochechas do rosto corarem. Neste momento ele se levantou da cama, e veio na minha direção e me abraçou por trás. Inclinou a cabeça e me segredou ao ouvido. “Tu vais ter muito sucesso no teu projecto. Tenho absoluta certeza que a determinação e força que demonstraste agora serão a chave do teu sucesso. Foste directa, sem rodeos e isso é a base da personalidade de uma pessoa que sabe o que quer na vida.”

Será que sei mesmo? A reação que tive foi mais fruto do inconsciente do que de uma estratégia previamente delineada. No entanto gostava de sentir o calor do corpo dele colado ao meu. Os seus braços envolta da minha cintura eram para mim o meu cordão de segurança. Ali dentro não havia como ser magoada ou molestada. Senti que algo colado ao meu corpo tomava uma forma mais enrijecida e ele, muito gentilmente, encaminhou-me para a cama onde tivemos mais um momento de prazer e deboche em conjunto.

Perto das dez horas o Jorge tinha de sair para ir dar aulas particulares e aproveitei para voltar a casa e tratar e fazer uma limpeza além de algumas arrumações na minha casa. Há mais de uma semana que não dormia em casa e aquilo já precisava de uma limpeza mais profunda. Trabalhei e limpei tudo até chegar perto das cinco da tarde. Tomei banho e fui trabalhar. Desta vez o Jorge não estava lá em baixo quando saí. Primeiramente fiquei um pouco triste, mas depois tomei consciência que isso não deveria ser um hábito, mas sim algo extraordinário. Ele não me levou, mas as dez e meia lá estava na porta do prédio a minha espera como fizera até então, todos os dias. Sempre que chegava perto do carro ele repetia a mesma frase: ‘Foi a senhora que pediu um Uber para lavá-la a Odivelas?, eu sorria entrava no carro e depois de um beijinho de cumprimento, lá seguíamos para a casa dele.

Chegara o dia 8 de janeiro. Mais uma vez foi uma noite onde tive muitos sonhos e acordara assustada. Amanhecera e eu já estava acordada desde as cinco. O Jorge acordou perto das sete e meia e viu-me sentada na cama. Perguntou se estava tudo bem, respondi que sim, e que não. Ele sorriu, disse com carinho que não valia a pena estar em ansiedade. Somente na parte da tarde é que saberíamos o resultado. Falar é fácil, no entanto eu estava ansiosa e assim fiquei grande parte do dia. Passara as 12h, 13h, 14h e nada. Eram já quase três da tarde e eu desesperava. Olhava para o telefone de cinco em cinco segundos como se tivesse passado uma hora entre cada olhada. Eram exactamente três e dez quando o meu telefone tocou. Mais uma vez não conhecia o número e não era o mesmo que me tinha ligado da ultima vez quando a Margarida telefonara. Atendi e do outro lado agora era uma voz masculina.

“Boa tarde. Queria falar por favor com a srª Maria Conceição Martins!”
“Sou eu. Quem fala por favor?”
“Olá Maria sou eu o José Marques, como estás? Tudo bem?”
“Olá José, tudo. E contigo como vão as coisas?”
“Vão bem obrigado. Acredito que está ansiosa para saber o resultado, certo?”

Tremia toda e agora então a falar com  o José Marques, parecia que tinha as pernas feitas de manteiga a derreter. Senti o corpo desequilibrar e sentei-me no sofá.

“Tenho que admitir que sim.”
“Ok. Vamos lá então, chega se suspense. Quero dar-te os parabéns e dizer que foste selecionada e que gostaríamos de ter-te connosco já na próxima segunda-feira as 09h00 aqui em Alcântara. Vão ser duas semanas de muito trabalho e, como te disse em dezembro, muita dedicação. Nesta nova edição vamos ter imensas surpresas e apoios que vão revolucionar a forma como o empreendorismos é feito em Portugal. Quis ser eu a te telefonar pois, desde a Casa do Impacto, que fiquei super interessado no seu projecto. A Margarida disse-me que a tua entrevista foi excepcional e muito franca. Causaste uma excelente impressão na Margarida. Sabias disso?”

Respondi que não e agradeci a confiança que estavam a depositar em mim.

“Não Maria. Deves agradecer a ti própria. Se vais participar, só a ti deves. Foi a excelente apresentação do projecto que fez, que despoletou ainda mais o nosso interesse. Mas agora espera-te muito trabalho e nada está garantido. O teu projecto só vai existir se trabalhares com afinco e determinação para o pôr de pé. Até aqui tudo funciona bem no papel. Nas próximas duas semanas, todos os dias vamos apoiar-te na validação e possibilidades dele funcionar e se tornar um negócio e rentável. Para já é tudo o que te posso dizer. Mais uma vez parabéns e seja bem vinda a família do ‘adição’. Há alguma questão que me queira colocar?”
“Sim. Quais são os próximos passos que tenho de dar?”
“Não te preocupes. Vais receber daqui a pouco um email da Margarida com toda a informação que precisas saber. Estará lá tudo escrito. Continuas a trabalhar, certo?”
“Sim. Porque?”
“Por causa do pagamento. Se estivesse desempregada teríamos de associar os papeis para preencher e pedirmos depois o apoio ao IEFP. Assim sendo, vamos te enviar o IBAN da conta para onde deves transferir os 35€ da tua participação. Isso não é problema para ti, pois não?”

Respondi que não e depois de mais alguns agradecimentos quer da minha parte quer da dele, desligamos a chamada. Mais uma vez olhara para o lado e lá estava o Jorge, agora com uma garrafa de champagne numa mão e dois copos na outra. Era momento de celebração e eu estava no sitio certo na hora certa… pela primeira vez na minha vida. Bebemos, expliquei-lhe tudo o que falamos ao telefone e depois de assegurarmos que toda a garrafa tinha sido consumida, ele pegou-me pelas mãos e conduziu-me para um dos sofás laterais, de uma pessoa, e sentou-se no outro maior ao meu lado. Sem soltar as minhas mãos, olhou nos meus olhos e me perguntou: “Agora que sabes que vais participar no projecto ‘adição’ é o momento que preciso de saber a tua resposta a minha questão. Queres vir viver comigo e fazer de mim parte da tua vida?”

Chegara o momento. Tinha tomado a decisão há três dias atrás, mas mesmo assim foram várias as vezes que retirei a folha de papel da minha mala para rever todos os pontos de vantagem e desvantagens. Efectivamente, mesmo depois de três dias a analisar aquela listagem, a minha decisão estava tomada e só podia ser positiva. Olhava também para ele. Tinha aqueles olhos verdes maravilhosos, como de um bebé, que estavam fixos nos meus. Abanei a cabeça afirmativamente, mas ele apertou as minhas mãos e pediu: “Não quero um abanão de cabeça. Quero ouvir da tua boca. Diz-me qual é a tua resposta por favor?”
“Sim, eu Maria Conceição Martins quero vir viver contigo Jorge Santos. Espero que tu tenhas muita paciência para aturar um mulher que, nos próximos tempos vai mudar a tua vida toda e por tudo de pernas para o ar.”

Ele abriu um sorriso de orelha a orelha e ajoelhou-se a minha frente e me deu um abraço apertado acompanhado de beijos no meu pescoço. Que sensação boa.

“Tu não vais te arrepender desta decisão. Tenho certeza que vamos nos dar muito bem. Afinal nas ultimas semanas foi muito pouco o tempo que estiveste na tua casa. Quase já não vais lá e só mesmo quando precisas de roupa é que voltas lá. Olha, eu até já reservei um espaço só para ti no meu guarda-fatos. Vem comigo.”

Acompanhei-o até ao closet que fica contiguo ao quarto e quando ele me abriu a porta, verifiquei que todo o lado esquerdo estava desocupado para eu poder por as minhas roupas. Eram 3 varões, prateleiras e várias gavetas de vários tamanhos, todas vazias e a espera da minha roupa. Efectivamente o ano começara de forma auspiciosa. Já eram quase quatro da tarde e tinha de ir trabalhar. Finalmente chegara o momento de falar com o dr. Mateus sobre o meu pedido de férias. O pior de tudo é que iria pedir para iniciar logo na segunda-feira seguinte. Comecei a ficar com medo do que poderia acontecer. Comentei com o Jorge, mas ele estava tão alegre que só me passava palavras de motivação e encorajamento. Dizia que os ventos começavam a soprar a meu favor e que iria dar tudo certo. o dr. Mateus iria aceitar o meu pedido.

Este encorajamento deu-me força para chegar ao callcenter um pouco antes das 18h00 para poder ir ter com o dr. Mateus. Chegada lá em cima, procurei a coordenadora dos chefes de equipa e disse que queria falar com o dr. Mateus. A primeira coisa que me fez foi perguntar o que é que eu queria falar com ele. Não havia forma de conseguir chegar ao dr. Mateus sem passar por esta megera. Parecia que todos ali estudaram pelo mesmo livro de má educação. São promovidos a um cargo de chefia e tornam-se antipáticos e maldispostos. Expliquei que precisava de pedir três semanas de férias e a resposta que recebi logo foi “Aqui as férias só acontecem em julho e agosto. A marcação de férias só é permitida a partir do dia 1 de março. Para quê quer pedir agora?”

Expliquei que tinha de tratar de uma questão pessoal e iria estar ausente da empresa pelo menos três semanas. Enquanto falava ela me olhava de alto a baixo por cima de uns óculos pousados na ponta de um nariz ancudo e curvado. Só faltava a verruga na ponta para ser a bruxa má do oeste. A resposta dela foi pronta. “O dr. Mateus está muito ocupado e não pode falar consigo agora. Faça o favor de voltar para o seu posto imediatamente.”

“Não. Não vou voltar ao meu posto. Preciso falar com o dr. Mateus hoje sem falta, por favor.”
“Eu já lhe disse. O dr. Mateus está muito ocupado. Hoje não é um bom dia.”

Já que esta cabra não queria me ajudar, ignorei por completo a existência dela, levantei-me da cadeira a frente da mesa dela e me encaminhei em direção da sala do dr. Mateus. Ela, quando sentiu que eu estava a desrespeitar a sua ordem, levantou-se e saiu detrás da mesa e com os braços no ar dizia em voz alta para eu parar e voltar para trás. Não dei atenção nenhuma a ela e como ia uns bons metros a frente, bati na porta da sala do dr. Mateus e do outro lado ouvi “entre”.

Abri a porta e fechei rapidamente atrás de mim, deixando a coordenadora dos chefes de equipa na parte de fora a olhar pelo vidro para o dr. Mateus fixamente e a abanar os braços a pedir para entrar. Ele levantou a mão como se indicasse que não era preciso e ela baixou os braços e ficou ali estancada a olhar para dentro da sala através do vidro.

“O que foi? O que queres?”
“Boa tarde dr. Mateus. Preciso falar consigo por favor e não tenho como esperar.”
“O que é? Despacha-te lá pois tenho muito que fazer ainda.”
“Preciso de três semanas de férias e preciso de começar já na segunda-feira.”

Foi como se o tempo tivesse congelado e parado. O dr. Mateus estava a escrever e a caneta ficou parada na sua mão direita sobre o papel. Lentamente ele pousou a caneta na mesa, encostou-se na sua cadeira de costas altas, cruzou os braços e olhou para mim.

“Devo ter ouvido mal. Disse que precisa de três semanas de férias e quer começar já na segunda-feira?”
“s…si… sim.”

Com um ar a roçar o sarcasmo e o espanto ele me perguntou “Mas por que motivo eu deveria aceitar este teu pedido?”
“Tenho um assunto pessoal a tratar e não vou conseguir vir trabalhar nas próximas três semanas.”

Neste momento como se fosse um trovão a arrebentar no céu, ouço uma gargalhada gutural e sarcástica a sair da boca do dr. Mateus.

“Ah! A menina quer três semanas de férias…que conveniente.”

Já não consegui responder. Estava aterrorizada de medo e só consegui dar um ligeiro balançar de cabeça afirmativo. Ele recostado na cadeira e com os braços cruzados continuava a olhar para mim em silêncio.

“Como disse que te chamas?”
“Não disse quando entrei. Sou a Maria Conceição. Estive aqui consigo no início de dezembro quando o senhor me promoveu a chefe de equipa.”
“Agora me lembro. Sim. Foi a pessoa que me deixou uma ótima impressão com resultados excelentes.”

Ele continuava a olhar-me fixamente e eu tremia toda. Tinha as pernas quase a fraquejar e deixar-me cair no chão.

“Não. Não te dou férias. Aliás, aqui as férias só podem acontecer em julho e agosto que é quando o movimento diminui. Agora volta para o teu posto se faz o favor. Tenho muito que fazer.”

Ele voltou a aproximar-se da mesa e pegou na caneta que tinha pousado e continuou a escrever. Eu não me mexera do lugar. Continuava em pé a frente da porta da sala. Ele levantou os olhos e por cima dos óculos olhou para mim e disse “O que estás a espera? Já te disse que não há férias para ninguém e volta já para a tua mesa por favor.”

“dr. Mateus, preciso mesmo das férias. Preciso por favor das três semanas para tratar do meu assunto pessoal.”

Mais uma vez o dr. Mateus pousou a caneta sobre as folhas de papel e agora, ao invés de se recostar, ele pousou as mãos sobre a borda da mesa e levantou-se. Ainda com as mãos apoiadas na mesa e a olhar para mim por cima do aro dos óculos começou a falar em tom mais alto.

“Que parte do que eu disse é que não entendeste? Não há férias para ninguém. Não te concedo férias nenhuma. Ninguém aqui tira férias em janeiro e muito menos vem me pedir numa sexta-feira para começar na segunda seguinte. Fora daqui se faz favor. Já te disse para voltares a tua mesa e esquecer este assunto. Volto a repetir, NÃO HÁ FÉRIAS PARA NINGUÉM!!!”

Agora ele já gritava na minha direção e eu estava toda encolhida como se esperasse logo a seguir um enxerto de porrada. Mas isso não aconteceu. Tinha um homem de pé a gritar a minha frente separados por uma mesa e com o braço direito esticado a apontar na direção da parte de fora da sala. Com os gritos que dera, todos os que estavam a volta da sala, e nas mesas em redor, levantaram-se dos seus cubículos e ficaram a olhar para o que se passava dentro da sala. A coordenadora dos chefes de equipa agora tinha os braços cruzados a frente do peito e na cara um leve sorriso sarcástico como se dissesse ‘eu avisei’.

Dentro da sala, eu continuava de pé. Sentia todo o peso do mundo sobre os meus ombros e todos os olhares que vinham de fora do escritório. Não podia desistir. Tinha começado e agora não podia acovardar-me e desistir. Levantei a cabeça, respirei fundo para tentar ganhar alguma animosidade e voltei a insistir. “dr. Mateus, por favor, seja razoável. Eu preciso mesmo de tirar três semanas de férias. Eu não posso esperar por julho ou agosto. Tem de ser agora. Por favor”.

A expressão do dr. Mateus passou de um branco lívido ,devido ao berro que deu, para uma cara a ficar com as bochechas, pescoço e testa encarnados como se fosse um vulcão a entrar em erupção. Aquela expressão ainda durou uns segundos e sentia que, se ele pudesse, me matava só com o olhar. Ele virou-se de costas para mim, passou a mão sobre o rosto encarnado, esticou os braços, e pensei seriamente que ele iria me atacar, puxou as calças para cima, virou o rosto para o tecto da sala e soltou o ar que tinha nos pulmões como se tratasse de um ritual de retorno a calma. No momento a seguir, ele virou de volta para mim, ainda de pé, e fez sinal para a coordenadora dos chefes de equipa entrar na sala. Ela que estava ali fora no vidro a apreciar tudo como se estivesse a ver uma cena de circo, abriu a porta e eu tive que me afastar para ela não me derrubar aquando da abertura da porta.

“Queira por favor acompanhar a Srª Maria Conceição até ao nosso departamento de recursos humanos para ela assinar a demissão e logo a seguir, por favor assegure que ela sai deste edifício o mais depressa possível.”

Não podia acreditar. Estava a ser demitida? Como assim? A coordenadora dos chefes de equipa pegou no meu braço para me arrastar para fora da sala e eu dei-lhe um safanão para ela me soltar. Ela sem dizer uma palavra fez-me sinal para ir a frente e sair da sala em direção a sala dos Recursos Humanos. Tinha levado um virtual pontapé no peito e tinha o corpo todo dorido sem que ninguém me tocasse. Ainda tentei olhar para o dr. Mateus, mas este já estava sentado na cadeira, com a caneta na mão direita a escrever ou pelo menos a fingir que escrevia. Saí da sala e todo o andar estava de pé a olhar para a cena macaca que acabara de acontecer ali. Eu sem dizer uma palavra, sentia que estava a atravessar um calvário com uma cruz pesadíssima nos meus ombros. Atrás de mim a coordenadora dos chefes de equipa gritava, a medida que passávamos, para todos os que estavam de pé a olhar, para voltarem ao trabalho que o espetáculo já tinha terminado. Eu seguia a frente para a sala no final do corredor principal do lado direito. Era a sala por onde todos passávamos quer entrássemos ou saíssemos do andar. Era como se ali fosse o local de permissão ou proibição de acesso ao piso. A coordenadora dos chefes de equipa bateu na porta e a responsável dos recursos humanos mandou que entrássemos. Ela já estava a par de tudo, pois no tempo que demorou sairmos da sala do dr. Mateus e chegar ali, ele já tinha ligado para ela e explicado tudo. A directora dos Recursos Humanos virou para mim e disse “A menina fez besteira da grossa e agora deve assumir as consequências. Queira por favor sentar-se enquanto preparo o documento para assinar.”

Entretanto a directora pediu para a coordenadora dos chefes de equipa esperar do lado de fora da sala. Ela saiu muito contrariada, mas manteve-se ali do lado de fora da porta com um cão de guarda que protege a casa. Eu, sentada ali perante a directora dos RH não tinha vontade de chorar. Não sei como nem porque, mas estava calma. Sentia milhares de borboletas no estomago, mas não tinha vontade de chorar. Queria que aquele momento terminasse o quanto antes. Via a directora dos RH datilografar no teclado do computador e passados uns poucos minutos a impressora cuspia folhas de papel que ela retirava em conjunto de três e agrafava. Momentos depois tinha na minha frente duas cópias de um documento de demissão por justa causa por desrespeito a chefia.

Como é que é? Desrespeito? Virei-me para a directora e questionei que tinha sido ele quem gritara comigo. Eu nem sequer levantara a voz? Enquanto lia aquela acusação falsa, começava a nascer em mim um sentimento de revolta e raiva por aquilo tudo. Cambada de pessoas nojentas com atitudes nojentas e pouco ética tentavam que eu assinasse um documento a dizer que eu tinha desrespeitado a chefia e estaria lixada para o resto do meu tempo. Da mesma forma que estava nervosa, ganhei um momento de lucidez e frieza que de repente atravessou o meu corpo. Primeiro recostei na cadeira, olhei para ela e depois inclinei-me para a frente e pousei as folhas na mesa e disse “Eu não assino este documento. Eu não desrespeitei ninguém, aliás foi o dr. Mateus quem gritou comigo. Eu só fiz um pedido para ter três semanas de férias e foi ele que começou a gritar comigo. A decisão de me demitir foi vossa e eu não fiz o que está escrito neste papel.”

A directora olhava para mim como se não acreditasse que eu estava a confrontá-la e a dizer que não assinava. Ela estava com um ar completamente atarantado quando virou para mim e disse “Como assim não vai assinar? Você vai assinar sim senhora este documento ou então será muito pior para si.”

“Não. Não vou assinar este documento. Se querem me demitir então terão de dizer a verdade ou vou apresentar queixar contra vocês todos por intimidação e falso testemunho. Não se esqueça que todos no piso viram a cena estapafúrdia que o dr. Mateus fez comigo. Eu nunca levantei a voz nem sequer o confrontei. Desculpe mas ou muda para os termos certos da demissão como sendo uma decisão vossa ou não assino e vamos para tribunal. A decisão é vossa.”

A directora, no momento a seguir, mudou completamente de atitude e demonstrou que já estava habituada a lidar com situações destas. Afinal a vida dos trabalhadores de callcenter é mesmo a de ser carne para canhão. Muitos trabalham aqui para sobreviver, e eu, quer queira quer não, também era um destes casos. Ela virou de costas para mim, pegou no telemóvel e discou um número. Durante alguns minutos falou baixinho ao telefone e eu não consegui descortinar o quê ou com quem falava. Supus que era com o dr. Mateus. Terminada a chamada ela vira a cadeira novamente para mim e pede para eu aguardar. Volta o corpo para o computador e começa a datilografar novamente no teclado e, passado uns minutos,  novas folhas eram cuspidas da impressora. Ela voltou a agrupar estas em conjunto de quatro folhas e, mais uma vez, pôs duas cópias na minha frente. Peguei nelas e comecei a ler. Agora a demissão era por extinção da função e a ultima folha era a declaração que seria assinada por eles para eu entregar no IEFP para o subsídio de desemprego. Uma das clausulas que este novo documento tinha era o pagamento integral do subsídio de férias e do mês de janeiro, mesmo estando ainda no começo. Como as atitudes e postura mudam quando um trabalhador enfrenta a entidade patronal. Aquelas bestas, há cerca de dez minutos estavam a tentar me demitir por justa causa e agora estavam a me dar abonos e benefícios.

Assinei o documento e depois dela também assinar e carimbar, levantei-me, virei as costas e saí da sala sem sequer dizer adeus. Do lado de fora a coordenadora dos chefes de equipa me esperava com ar de poucos amigos. Acompanhou-me até ao elevador, desceu comigo até a portaria onde entreguei o meu cartão de acesso ao edifício ao porteiro. Ela ficou pelo lado de dentro enquanto eu saía do prédio sem sequer olhar para trás. Acabara de perder a ultima fonte de rendimento que tinha. Agora iria ter de meter os papeis no IEFP para o subsídio de desemprego, mas até receber o primeiro pagamento, iria esperar pelo menos dois meses. No entanto para sobreviver tinha o pagamento integral do mês de janeiro e o subsídio de férias. Tinha um misto de alegria e tristeza dentro de mim. na verdade a ‘ficha’ ainda não tinha caído. Estava totalmente desempregada a partir deste momento e com uma formação num projecto que não sabia o que era, a começar na segunda-feira seguinte. Peguei no telemóvel, olhei para a imagem do fundo onde estava abraçada ao Jorge numa self feita no parque da Ribeira. Desbloqueei e liguei para ele. Quando ele atendeu, tinha uma voz surpresa do outro lado e questionou se tinha acontecido alguma coisa. Respondi que sim, que acabara de ser demitida e estava na porta do prédio. A ultima coisa que escutei antes dele desligar foi “Não saia daí. Estou a caminho dai para te buscar.”

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    Capítulo X – A semana de todas as mudanças
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    Coach Wilques Erlacher

    ACC Coach Credenciado pela ICF. Especializado em Coach de Desenvolvimento & Metafórico e Presidente do Conselho Fiscal da ICF Portugal. Há mais de 20 anos que trabalho em funções relacionadas com Marketing, Vendas Corporativas, Desenvolvimento de Negócios, Gestão de Clientes, Formação, Mentoria e Consultoria em Vendas. O meu lema é: “Coaching não é para quem precisa, é para quem quer ser melhor” Os meus contactos são: email: we@wilqueserlacher.com || Skype: w.erlacher || Tel: +351 932 558 558

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