Capítulo XI – Um novo começo?

Enquanto esperava pelo Jorge chegar ao pé de mim, sentei-me a beira do passeio um pouco mais acima da porta principal do prédio. Tinha a cabeça apoiada sobre os braços e chorava. Tinham passado somente 3 meses desde que um telefonema mudou completamente a minha vida. Quando tudo começou eu era uma pessoa que tinha uma vida desgraçada por trabalhar em 3 empregos, não tinha tempo para mim, não conseguia vislumbrar um futuro e agora, de repente, perdera tudo. Não tinha mais emprego, não tinha poupanças, não tinha como continuar a viver no apartamento onde morava e, pior ainda, não tinha qualquer tipo de rendimento. Sentia-me no fundo do posso e para piorar, lembrei-me de um ditado que um amigo me disse um dia, e que era exatamente o meu sentimento: sentia-me o cocó da mosca no cocó do cavalo do bandido.

“Maria! Está tudo bem contigo?”

Levantei a cabeça e nem dei por isso, pois tinha a minha frente o Jorge agachado e a segurar os meus braços. Levantei a cabeça com os olhos inchados de tanto chorar e só tive forças para me lançar nos braços dele, afundar a minha cabeça no seu ombro e chorar com todas as forças que tinha. Precisava exalar aquela frustração e raiva. Chorei muito, tanto que soluçava ao ponto de não conseguir verbalizar uma palavra que fosse. Ficamos ali, no passeio a frente do maldito prédio abraçados não sei quanto tempo. Mas aos poucos o Jorge me levantou e me encaminhou para o carro. De repente estava sentada no banco do carona e, mais uma vez, outra onde de raiva atingiu o meu peito e soltei um grito que, não fosse o carro estar com os vidros fechados, teria espantado quem por ali passasse. Sem dizer uma palavra ou fazer qualquer pergunta, o Jorge me levou para a casa dele. Entramos e já no apartamento dele, sentou-me no sofá onde deixei-me levar pelas suas mãos e deitei no sofá da sala. Eu não conseguia parar de chorar. Todas as vezes que pensava na situação que estava a enfrentar, faltavam-me as forças e deixava-me levar pela emoção e chorava. Já não tinha forças para soluçar ou mesmo para barafustar. Deixava-me levar pela melancolia e dor que apertava o meu peito. Senti as minhas forças fugir e quando dei por mim, estava a acordar no dia seguinte, na cama e somente com a minha roupa interior. Não sentira nem dera por absolutamente por nada. Abri os olhos e quando consegui sair da letargia do sono e dor que me encontrava, vi o Jorge sentado a beira da cama a olhar para mim com aqueles olhos verdes que me derretiam o coração só de olhar para eles.

“Sentes-te bem?”

“Sim. Um pouco melhor. Obrigada por tudo o que estás a fazer por mim.”

“Eu não fiz nada. Queres falar comigo sobre o que aconteceu ontem?”

“Ainda não, por favor. Preciso de tomar um café e lavar-me. Depois disso prometo que conversamos.”

Fui para a casa de banho e tive a infeliz ideia de me olhar ao espelho. Estava horrível, com umas olheiras profundas e um ar abatido. Parecia que tinha chocado de frente contra uma berliet ou mesmo passado por cima de mim. Olhei para dentro dos meus olhos e a única pergunta que me vinha a cabeça era, e agora? O que será da minha vida. Era sábado de manhã e na segunda-feira seria o começo do curso do programa ‘adição’. Como teria força e motivação para me levantar e ir frequentar o curso? Chegara ao meu limite das forças e tinha de deitar a toalha ao chão. Na segunda iria ligar para o José Marques e para a Margarida e dizer que já não iria mais. Tinha de procurar arranjar um trabalho. Não podia ficar sem emprego, senão seria o fim da minha vida. Tirei a roupa e entrei para o chuveiro. Precisava limpar um pouco a alma e o banho quente, de certeza, seria o primeiro passo. Depois de sair do banho e me secar, olhei novamente para o espelho e a Maria que via já estava um pouco melhor. Saí enrolada na toalha e quando olhei para a porta da casa de banho, lá estava ele com uma chávena de café na mão a olhar por mim.

“Sabia que eu adoro ver-te assim enrolada na toalha? Ficas muito sexy.”

Sorri. Era um piropo, mas soube bem ouvir.

“És muito gentil. Não sei o que seria de mim, se não tivesses ido me buscar ontem a noite. Estava mesmo desesperada e sem rumo.”

“Vá, vem cá para a sala e me conta tudo o que se passou por favor”

Sentamos no sofá da sala e, aos poucos, fui contando tudo o que se passara. Todo o confronto que tive com o Dr. Mateus, o processo de bullying que a directora de recursos humanos tinha tentado me impingir, a presunção e prepotência da coordenadora das chefes de equipa comigo. A medida que ia falando, algumas vezes tive que parar um pouco pois o aperto no peito era de tal forma, que precisava levantar a cabeça e respirar fundo para não cair novamente em prantos. Falei-lhe então da minha coragem para não me deixar intimidar e que conseguira sair de lá com a declaração assinada por eles para eu dar entrada no IEFP para o subsídio de desemprego e que iriam me pagar o salário integral do mês de janeiro além do subsídio de férias vincendo. Também continuei a falar e disse-lhe que na segunda-feira iria ligar para o José Marques e pedir desculpas, pois não iria poder frequentar o curso do projecto ‘adição’.

Nesta altura olho para o Jorge e noto que ele olhava para mim com um ar esquisito, quase que horrorizado com o que estava a falar.

“O que foi? Disse algum disparate?”

“Minha querida Maria. Sabes que eu sou um homem das matemáticas. Certo?”

Abanei a cabeça afirmativamente.

“Pois, sendo um homem analítico, não me deixo levar por emoções, principalmente quando estão em jogo temas muito importantes com a vida profissional. Assim sendo, mesmo tendo um carinho e amor gigantesco por ti, não consigo ouvir o que dizes e deixar achar que é um verdadeiro erro que vais cometer.”

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“Mas Jorge, eu não tenho como me sustentar. Perdi os meus empregos todos e como é que vou pagar as minhas despesas? Tenho compromissos todos os meses e não posso simplesmente ignorar que eles existem.”

“Maria, não estou a dizer que tenhas de ignorar absolutamente nada. Mas deixa-me então usar a minha experiência de professor de matemática e vamos fazer umas contas. Permites-me por favor?”

Mais uma vez, abanei a cabeça afirmativamente.

“Vejamos, ainda não estamos no dia 10 de janeiro. Foste ao Dr. Mateus para pedir 3 semanas de férias, a começar na segunda, para poder frequentar o curso do ‘adição’, porém o curso é somente de duas semanas. A terceira semana seria para uma eventual necessidade de trabalhar no teu projecto e não ter de estar comprometida com o trabalho. Se assim fosse, após as três semanas de férias iria calhar voltar ao trabalho no início de fevereiro e, já nessa altura, saberás se o seu projecto terá ou não viabilidade. Estará mais preparada, mais formada, o projecto ficará mais a prova de bala do que tens hoje. Estou certo?”

Parecia aquela bonequinha que colocam no tablier do carro a abanar a cabeça.

“Continuando, assim sendo, ainda antes do final de janeiro irá receber o teu salário integral como se estivesses a trabalhar, além de um extra que é o subsídio de férias relativo ao ano passado. Assim sendo, temos então alguma base financeira para a tua vida pode se manter, no ritmo que tinha, por dois meses. Dentro deste tempo, ainda vais poder meter, já na próxima semana, os papeis no IEFP e, na pior das hipóteses, no final de fevereiro, irá receber 80% do teu salário actual, ou seja, cerca de 900€. Ora bem, como o subsídio de desemprego tem uma duração, no teu caso, de 12 meses, irá de uma forma mais ou menos viável, poder pagar as tuas despesas por uma ano e quanto a questão da comida, não te preocupes pois comes aqui em casa comigo. Afinal tenho de me alimentar e não é por tua causa que irei gastar mais do que gasto. Vejamos então mais outras coisas a teu favor. Durante o curso do ‘adição’ posso perfeitamente te levar e buscar sem problema nenhum, assim não tem de comprar o título de transporte. Como vais estar o dia inteiro no curso, podemos preparar-te uma comida básica para que possas levar e comer sem ter de recorrer a cozinha para aquecer a comida. Depois disso, quando tiveres de trabalhar no teu projecto, tens tudo o que precisas aqui em casa, o que vai permitir cancelares o contrato de televisão e internet fixa que tens em casa. Já são menos dois custos fixos. Como não vou te deixar de forma nenhuma sozinha, a energia eléctrica da tua casa vai ser o consumo mínimo necessário. Podes perfeitamente lavar a tua roupa aqui em casa e, se não te esqueceste, tenho ali dentro um armário pronto para receber a tua roupa.”

Ele parou por uns minutos para respirar, levantou-se do sofá e foi em direção a janela olhar lá para fora. Eu continuava sentada no sofá e, enrolada na toalha, absorvia tudo o que ele me dizia e olhava para aquela figura imponente parada junto a janela mesmo a minha frente. Depois de alguns minutos a olhar para fora, ele vira para mim, olha-me fixamente e encaminha na minha direção. Ajoelhou-se a minha frente, pegou nas minhas mãos, olhou dentro dos meus olhos e disse.

“Maria, há mais uma última coisa que te quero pedir e isso pode ter um impacto muito profundo na tua, e na minha vida.”

“Sim, diz-me o que queres que te diga?”

Ele continuava a olhar para mim muito sério e comecei a ficar preocupada com o que iria sair daquela boca.

“Quero que deixes a tua casa e venhas viver comigo, definitivamente. Quero ter-te sempre comigo. Gosto de ti e quando estou ao pé de ti, o meu mundo fica melhor. Sou feliz ao teu lado e gostava que me deixasse fazer-te feliz, vivendo comigo.”

Não conseguia expressar a felicidade que sentia depois de ouvir o pedido dele. Só consegui fazer duas coisas. A primeira dizer que sim, que queria decididamente viver com ele e que ele me completava. A segunda foi levantar-me e deixar a tolha que tinha enrolada no corpo cair ao chão e ficar totalmente nua. O que veio a seguir é algo impróprio para contar aqui.

Definitivamente estava a nascer um novo começo na minha vida. Seria um fim de semana de mudança total em tudo.

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Coach Wilques Erlacher

ACC Coach Credenciado pela ICF. Especializado em Coach de Desenvolvimento & Metafórico e Presidente do Conselho Fiscal da ICF Portugal. Há mais de 20 anos que trabalho em funções relacionadas com Marketing, Vendas Corporativas, Desenvolvimento de Negócios, Gestão de Clientes, Formação, Mentoria e Consultoria em Vendas. O meu lema é: “Coaching não é para quem precisa, é para quem quer ser melhor” Os meus contactos são: email: we@wilqueserlacher.com || Skype: w.erlacher || Tel: +351 932 558 558

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