Coach – a profissão da moda

Sabe aquela sensação que tem quando está preste a comprar alguma coisa e começa a notar que toda a gente teve exactamente a mesma ideia? Pois é, o mesmo está a acontecer com a profissão de Coach. Deixe-me ser um pouco mais específico. Depois de trabalhar alguns anos como formador e consultor resolvi enveredar por tornar-me um coach certificado e credenciado pela ICF (International Coaching Federation). Foi exactamente quando terminei a certificação que comecei a notar a quantidade de pessoas que se apresentam como Coach. Estava muito habituado a ouvir esta expressão ligada ao desporto, porém, quando começo a olhar para o mercado, agora com os “olhos de ver” como Coach é que noto o seu estado actual.

A ICF não está sozinha neste mundo das associações e além dela, conheço a existência da ECA (European Coaching Association) e da ICA (International Coaching Association), ambas com representantes em Portugal e que formam profissionais nas competências de Coaching. Como disse, sou credenciado pela ICF e sou membro da Direção que assumiu funções em Junho deste ano, sei que em Portugal existem cerca de 150 Coaches credenciados pela ICF com um dos níveis de credenciação ACC (Associated Certified Coach), PCC (Professional Certified Coach) e MCC (Master Certified Coach).

A ICF Global, de quatro em quatro anos, faz um estudo global, onde participam cerca de 15000 Coaches por todo o globo. Quer no estudo feito em 2012 quer no último feito em 2016, os profissionais identificaram que os 3 maiores desafios para a credibilidade de quem trabalha nesta profissão são: 1) 44% por existirem indivíduos que não tem nenhum tipo de formação e se intitulam Coaches; 2) 28% devido a confusão no mercado a respeito dos benefícios do Coaching; e 3) 11,6% devido a saturação no mercado.

Quero apresentar 3 factores importantes a ter em consideração:

  1. ser uma profissão que não está regulada por uma “Ordem” como acontece no caso de profissionais, como por exemplo, Contabilistas, Engenheiros, Arquitectos, Médicos, Enfermeiros, Psiquiatras ou Psicólogos;
  2. a percepção geral que um processo de coaching deve ser comparado a terapia, o que não é de todo igual;
  3. a falta de clareza sobre o que é o Retorno do Investimento feito no coaching.

Facilidade de acesso

Partilho um trecho que encontrei no exemplar número 1 da Revista Coaching Brasil, para melhor explicar os 44% do primeiro item do estudo, onde o editor escreve: “Observa-se, por vezes, o emprego indevido da palavra Coaching para referir-se a uma série de práticas cujo objectivo, base teórica e aplicação nada têm a ver com esta metodologia, facto este que poderá causar dificuldades tanto para os que buscam contratar serviços especializados, quanto para aqueles que desejam uma formação adequada para exercer esta actividade profissional. Isso afecta a imagem e ameaça a credibilidade dos que se dedicam de forma séria e sistemática à prática do Coaching, banaliza e distorce o alcance da sua acção, desinforma, dificulta a obtenção de informações fidedignas sobre o potencial e a potência de processos de Coaching conduzidos com propriedade e calcados em princípios éticos. É este vácuo contextual que explica o surgimento de chamadas formações de cunho comercial, abertas a qualquer pessoa, sem pré-requisitos mínimos, sem qualquer tipo de selecção prévia. Apoiam-se em vendas intensivas, sugerem resultados discutíveis que nem sempre privilegiam os princípios da ética profissional. Para vários destes, Coaching resume-se a fazer perguntas, preencher formulários e seguir algumas regrinhas básicas a serem aplicadas mecanicamente, não considerando a complexidade e a diversidade de cada ser humano e a responsabilidade que tal actividade envolve.”

Quais os benefícios do Coaching?

Relativamente ao segundo resultado é importante ter em conta os 28% dos Coaches reconhecerem que o mercado tem muita confusão sobre onde reside os benefícios do Coaching. Por isso, se não sabe como o Coaching pode ajudar a atingir objectivos profissionais e pessoais, tem dúvidas sobre como ele funciona e os benefícios que pode esperar, apresento quatro razões para avançar com um processo:

Responsabilização – uma mudança só acontece quando há responsabilização pelas decisões tomadas e pelos resultados definidos no plano de acção. O Coaching vai ajudar a criar objectivos realistas e realizáveis com métricas de controlo que de forma continuada serão validados, verificados e ajustados. Muitas vezes, o simples acto de dizer a alguém os objetivos que pretende alcançar, tem um impacto positivo na forma e na vontade de atingi-los.

Imparcialidade – Embora a família e os amigos sejam uma grande fonte de apoio, às vezes é difícil encontrar uma opinião imparcial quando são abordados determinados temas pessoais e/ou profissionais. O Coaching permite receber uma perspectiva imparcial de alguém “de fora” e isso ter impacto na perspectiva e ajudar a ver as coisas sobre um ponto de vista diferente.

Desenvolvimento – Os benefícios associados ao coaching são infinitos. Contratar um processo de Coaching pode ajuda a se sentir motivado, manter o foco,  encorajar a enfrentar tarefas difíceis que são frequentemente adiadas e a melhorar o desempenho individual geral.

Foco – O Coaching oferece uma oportunidade para se concentrar na realização das aspirações e sonhos pessoais. O processo de Coaching cria um espaço neutro para falar abertamente sobre pensamentos, dúvidas, sentimentos e tudo o que considera realmente importante. Com o Coaching pode explorar ideias criativas que facilitarão a realização dos objectivos que definir. Irá trabalhar para ser o melhor de si mesmo e assumir o controlo dos diferentes eventos da vida.

O que difere o Coaching da Terapia?

Este é um tema que tem vindo a ser muito debatido na comunidade de profissionais de Coaching. A própria ICF Global já escreveu muitos artigos sobre o que difere Coaching da Terapia. De uma forma mais clara, baseio-me na descrição feita pelo The Coaches Training Institute:

CoachingTerapia
Vê os dois processos como complementares, criativo e cheio de recursos.Olham para o cliente sempre do ponto de vista médico.
Não faz diagnósticos ou prescrição de medicamentos.Faz diagnósticos e prescreve medicamentos.
Treinado para trabalhar com pessoas “saudáveis”.Treinado para trabalhar com pessoas com vários níveis de problemas mentais.
Trabalha com clientes que são capazes de formar uma parceria e definir objectivos comuns.Trabalha com clientes que problemas existenciais muito profundos.
É um aliado do cliente na procura de soluções para os problemas.É um especialista e avalia o resultado com base na sua experiência.
Coach e cliente estão no mesmo nível de interação.Há uma hierarquia natural na relação médico / cliente.
Foco na evolução e na descoberta do potencial.Foco na compreensão e na cura do problema.
Ênfase no presente para mudar o estado no futuro.Ênfase no passado para conhecer o estado no presente.
Acção e orientação.Introspecção e reflexão. 
Orientado na procura de soluções.Orientado na compreensão do problema.
Explorar acções e comportamentos para melhorar e aumentar a autoestimaExplora a génese dos comportamentos que geram baixa autoestima.
Trabalha as crenças negativas como obstáculos temporários a serem ultrapassados.Analisa como tratar as raízes das crenças negativas com medicamentos.
Trabalha com “O que fará a seguir”, “O que pode fazer já para mudar”Trabalha com “Porque é assim”, “Como isso surgiu”
Trabalha na maior parte do tempo as relações exteriores.Trabalha na maior parte do tempo as relações interiores.
Não dá conselhos ou explicações sobre como resolver um problema.Aconselha e sugere formas de resolução do problema.
Responsabilização do cliente para resolver problemas entre as sessões. Sessões passivas a explorar o passado.
Contactos entre sessões são para comemorar vitóriasContactos entre sessões só acontecem no caso de uma crise ou problema grave.

Qual o futuro da profissão

Era capaz de entregar o desenho e construção de um prédio a alguém que trabalhou como vendedor de tijolos a vida toda e que tem umas “bases” sobre como fazer isso? Era capaz de pedir uma consulta de ortopedia a alguém que trabalha como pedreiro? E talvez contratar a mudança da instalação elétrica da sua casa a um pintor?

Sei que são perguntas estupidas e que a resposta é claramente um não. Se somos assim tão exigentes no processo de seleção do melhor profissional para uma determinada necessidade, por que não sermos assim quando pretendemos contratar um Coach?

Deixo a seguir algumas recomendações que as várias instituições que agrupam profissionais de Coaching dão:

Não se esqueça quem é o cliente

Todos nós quando vamos comprar alguma coisa a uma loja ou a uma empresa, temos sempre a oportunidade de questionar sobre como o que queremos comprar vai resolver o nosso problema. No Coaching deve seguir este mesmo processo para conhecer o profissional que vai contratar, questione:

  • Que escola tirou a certificação, quantas horas de formação teve?
  • Que tipo acreditação possui (ICF, EEC, IAC, etc)?
  • Como estrutura o processo de coaching?
  • Com que tipo de clientes e situações trabalha com mais frequência?
  • Que tipo de clientes e situação NÃO gosta de trabalhar?
  • Quantas sessões o processo vai ter?
  • Quanto tempo dura cada sessão?
  • Quanto custa cada sessão?
  • Que garantias são dadas pelo Coach de cumprimento do contrato?

Avalie o seu curriculum e a sua pegada digital

  • Que experiência o Coach tem no sector ou na resolução de problemas similares?
  • Que informação encontra sobre o Coach se colocar o seu nome no Google?
  • Que recomendações pode o Coach partilhar para sustentar a sua capacidade profissional?
  • Rege a sua forma de trabalhar por um código de ética? A ICF exige que todos os profissionais credenciados sigam as 11 competências e o código de ética. um cliente pode denunciar um coach ICF que não siga estes princípios.
  • Muitos Coaches exageram sobre a experiência profissional. Questione quantas horas ele passou conduzindo sessões de coaching e quantos clientes tem. Além do número que receber como resposta, peça referencias sobre com quem ele já trabalhou para conhecer o perfil de clientes que já teve.

Conhecer o seu processo de aperfeiçoamento

Todos os profissionais que sejam credenciados pela ICF devem manter um registo de formações continuadas para aperfeiçoar a sua capacidade profissional. Não é possível renovar uma credencial ICF sem um mínimo de horas de formação, em alguns casos horas a ter mentoria e supervisão. Se um Coach não monitoriza o próprio trabalho ou, pior ainda, quando não melhora o conhecimento fundamental, pode cometer os mesmos erros repetidas vezes, porque não há ninguém para lhe dar feedback. Existem seis formas para os Coaches monitorizarem o seu próprio trabalho:

Supervisão – é uma reunião feita com um Coach mais experiente. O Coach menos experiente fala sobre um caso em que está a trabalhar (enquanto protege a privacidade do cliente) e o supervisor compartilha as suas próprias reflexões e conselhos.

Mentoria – que novamente envolve uma reunião com um Coach mais experiente. Desta vez, no entanto, ele compartilha observações e conselhos gerais (não específicos de caso) sobre a prática de coaching.

Intervisão – é uma reunião com outros Coaches. Isso funciona de maneira semelhante à supervisão, mas não há uma pessoa que conduza a reunião; todo o grupo compartilha seus pensamentos sobre um caso particular.

Acreditação – é a confirmação de competência feita por uma instituição de formação ou regulação. Normalmente, para ser credenciado, o Coach precisa passar por formação, treinos, entrevistas, supervisão e assim por diante.

Autocoaching – geralmente através das notas tomadas pelo próprio Coach após a sessão (se envolver dados do cliente tem que assegurar que tem a permissão dele). Na minha opinião, este é um método muito subestimado pois permite o Coach olhar mais objectivamente para o que aconteceu e encontrar pontos de melhoria.

Feedback – significa perguntar ao cliente sobre como está a ver e sentir o seu progresso, alguns meses após o fim do processo de coaching. Se o cliente concordar, o Coach pode enviar uma mensagem para conhecer os efeitos do trabalho que realizaram juntos. Ao fazer isso, o Coach pode avaliar se o coaching teve um efeito real na vida do cliente.

Promete resultados que não pode garantir

Ele prometeu que numa única sessão será capaz de mudar totalmente a sua vida? Um processo de coaching trabalha com o potencial e as limitações dos indivíduos. Não há como garantir que após uma reunião todos os bloqueios internos desaparecerão para sempre. Para resolver um problema permanentemente, o tempo é fundamental. É verdade que o coaching pode resolver rapidamente muitos problemas. Mas se isso demorará uma, duas ou dez sessões depende de cada tipo de caso e da complexidade do problema. Nenhum profissional pode garantir resultados ou estimar isso antes da primeira reunião.

Conclusão final

Deixo uma tradução livre de um trecho do livro “Average is over” de Tyler Cowen:

Profissionais altamente qualificados, incluindo altos-executivos de empresas, terão obrigatoriamente de escolher algum tipo de Coach. Haverá muito valor em jogo para permitir que os profissionais de alto desempenho operem sem um fluxo constante de aconselhamento externo, mesmo que esse conselho tenha que ser aplicado de maneira bastante subtil. Os melhores médicos terão um Coach, assim como os principais tenistas de hoje têm técnicos. Atualmente, o Coach de um CEO é muitas vezes o cônjuge, o assistente pessoal ou até mesmo um subordinado, ou às vezes um membro do conselho de administração. O Coaching já é notavelmente importante em nossa economia, e a alta produtividade dos mais bem-sucedidos fará com que se torne um bem essencial.

Wilques Erlacher, ACC
Coach em Desenvolvimento Transformacional
we@wilqueserlacher.com

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Wilques Erlacher

ACC Coach Credenciado pela ICF. Especializado em Coach de Desenvolvimento & Transformacional e Director de Vendas na Saphety (empresa do Grupo Sonae). Há mais de 20 anos que trabalho em funções relacionadas com Marketing, Vendas Corporativas, Desenvolvimento de Negócios, Gestão de Clientes, Formação, Mentoria e Consultoria em Vendas. Fui Presidente da Direcção na OV-APPV Associação Portuguesa dos Profissionais de Vendas e trabalhei na Petrogal (actualmente Galp Energia), na Agência Reuters Portugal, na Bull Portuguesa, na Novis Telecom e Mainroad (grupo Sonaecom). Sou keynote speaker, formador e mentor de equipas de vendas, desenvolvi e pratico a metodologia "Venda Melhor – A Fórmula que muda a forma de ser". Trabalho como Coach no desenvolvimento de profissionais em clientes empresarias em Portugal, Colômbia, Brasil, Espanha, França, Itália, Quénia e Cazaquistão. Acredito que há um potencial a ser trabalhado em cada um dos meus clientes, de forma única. O meu lema é “Coaching: It’s all about execution!” Quer falar comigo sobre como ser melhor profissional? email: we@wilqueserlacher.com Skype: w.erlacher telefone: +351 932 558 558

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