Capitulo V – O desafio mor

Na primeira parte da conversa já tinha decorrido cerca de 20 minutos onde o dr. Pedro Teixeira explicara o que era a EAME e onde a instituição se inseria no projecto “RISE for Impact” que era uma resposta face à escassez de projectos inovadores com impacto social no mercado nacional. Consideravam prioritário intervir logo no inicio do processo, estimulando a geração de novas ideias e a sua transformação em soluções tecnicamente viáveis, financeiramente sustentáveis e de apoio a indivíduos e equipas que revelem motivação e competências para o empreendedorismo social.

Até este ponto confesso que estava tranquila. Tudo o que ouvia ia de encontro com o que pensava. Foi depois desta explicação que ele me disse que ainda faltava uma segunda parte, fundamental para que eu pudesse ser aceite no processo. Estava ainda na segunda parte de cinco passos, ou seja, o processo de Pré-seleção das candidaturas dividia-se em cinco etapas: a) Análise das candidaturas por parte da equipa de projecto; b) Indicação e escolha dos projectos numa shortlist para entrevista; c) Entrevista para conhecer o candidato e validar a sua motivação para levar adiante o projecto; d) Apresentação do projeto à equipa de júri da EAME em conjunto com a equipa da Casa do Impacto; e por fim a etapa d) Escolha final do júri dos projectos que irão frequentar o Bootcamp. Ainda teria que fazer uma segunda exposição, agora para uma equipa de júri. Comecei a suar de nervoso, senti um pingo de suor formar-se na minha nunca e descer pelas minhas costas como se fosse uma faca a cortar o meu corpo de alto a baixo.

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Terminada a apresentação do dr. Pedro Teixeira, a drª Celestina, que até aqui estava calada e a olhar intensamente para mim como a avaliar cada movimento e cada piscar de olhos que desse, vira para o colega, agradece a sua apresentação e ambas acompanhamos com o olhos a volta do dr. Pedro Teixeira para a mesa onde estávamos. Mais uma vez a drª Celestina assume o papel de líder da reunião e diz: “Bom Maria, agora que já conhece um pouco melhor todo o processo, queremos conhecer um pouco melhor o seu projecto. Lemos a descrição que colocou na sua candidatura e reconhecemos que tem um excelente potencial de ajuda e desenvolvimento social que procuramos apoiar. Porém temos algumas dúvidas que queremos esclarecer. Pode por favor explicar, de forma breve e sucinta, quais serão as fontes de rendimento para o projecto e como pretende motivar a participação das pessoas?”

Estava com o pensamento ainda preso nas etapas que ainda me faltavam, mas mesmo assim tinha a motivação necessária para explicar o que queria desenvolver. Ajeito-me melhor na cadeira, levanto a cabeça e respiro fundo. Tinha que ter muita calma para não estragar tudo a falar de coisas desnecessárias, afinal era para ser sucinta e directa. Comecei a falar: “Cresci a ver a minha mãe e minha tia fazerem magia sentadas numa máquina de costura. Elas conseguiam pegar num pedaço de tecido, alguma linha, o detalhe do desejo de uma cliente e transformar aquilo tudo em algo que ia muito além do que fora pedido. Não me lembro de ver uma cliente delas sair da loja sem um sorriso de orelha a orelha de tanta satisfação. Elas tinhas as melhores referencias na zona do Cacém e nunca deixaram que este sucesso lhes subissem à cabeça. Mantiveram um politica de preço justo e isso foi sempre o pilar base do sucesso. Cresci com o exemplo delas e aprendi a costurar e absorver esta magia para agora poder passar o mesmo encanto para mulheres desfavorecidas. Financeiramente falando, a forma como penso fazer o projecto render, é criando um escola de costura para ensinar mulheres que tenham dificuldades financeiras, uma arte que poderá ajuda-las a sustentar as suas famílias. Quero partilhar o que sei e depois tudo o que for produzido, no âmbito das aulas de costura, irá ser posto a venda a preços justos mas com qualidade e beleza. Com a venda destas roupas e artefactos produzidos pelas alunas, parte do lucro reverterá para a aluna e outra parte para a escola. O projecto ‘Maria Costureirinha’ quer ser o pilar de desenvolvimento para uma comunidade de mulheres que queiram fazer algo mais na vida do que somente existir e tomar conta de filhos e marido. Além desta parte da escola irei reactivar o mesmo projecto que a minha mãe e minha tia me ensinaram e irei costurar roupas a medida das clientes ou então recuperar peças para que possam voltar a ser utilizadas.” Calei-me, respirei fundo novamente e olhei para ambos. Acabara de expor o meu mais profundo desejo.

Ficaram alguns segundos a assimilar o que tinha dito e tomavam nota numa folha de papel que, a distancia onde estava, não conseguia distinguir o que escreviam. Mantive-me calada. Passado mais algum tempo a drª Celestina olha para mim e diz: “Maria, gostei muito do que ouvi, mas ainda tenho uma outra questão que preciso da sua ajuda. Onde pensou criar esta escola de costura? Pensou em algum lugar ou bairro específico?”

Aquela pergunta apanhou-me literalmente com as ‘calças nas mãos’. Tinha pensado em todo o modus operandi do projecto, mas até aquele momento nunca tinha avaliado qual poderia ser a zona de Lisboa ou arredores onde iria abrir a escola. Sabia que a volta de Odivelas existiam alguns bairros sociais, mas nunca por lá tinha passado. Vivia praticamente a minha vida em Lisboa e só voltava para Odivelas já tarde da noite somente para dormir e no dia seguinte voltar tudo ao mesmo. Para dar um tempo para conseguir encontrar a melhor resposta – se é que havia uma – peguei na garrafa com água despejei um pouco no copo e engoli devagar. Pousei o copo e mesmo assim não conseguia imaginar uma resposta que pudesse ser a que eles considerariam certa. Estava encurralada, tinha que dizer alguma coisa, mas o quê? E se dissesse o nome de um bairro que eles não consideravam prioritário? Se o nome que dissesse fosse definido por eles como um bairro sem problemas sociais? Eram tantas questões que passavam na minha cabeça ao mesmo tempo. Arrisquei a única opção que para mim, naquele momento, seria a mais correcta. Se não servisse, pelo menos poderia ver o lado positivo disso tudo. Tentara. Que se lixe. Respondi: “Não tenho nenhum bairro escolhido. Acredito que no momento certo e com o vosso apoio irei encontrar o local ideal para desenvolver a escola.”

A drª Celestina que olhava para mim, fez uma expressão que não demonstrara se tinha gostado ou reprovado a minha resposta. Não voltou mais a fazer perguntas. Olhou para o dr. Pedro Teixeira e questionou se ele tinha alguma questão a colocar, ele respondeu que não e foi então que ela virou para mim e disse: “Maria, agora é momento que poderá fazer as questões que quiser a nós. Tem alguma dúvida que queira fazer ou que deseja ver esclarecida?”

Estava nervosa. Tinha dado uma resposta e não conseguira perceber pela reação de ambos se tinha sido aprovada ou não. Pensei durante uns segundos e depois de revirar o meu pensamento a minha única pergunta foi: “Como saberei se passo a próxima etapa?”

A resposta foi rápida e directa por parte da drª Celestina. “A decisão se passa ou não para a fase de exposição ao júri é decida por nós dois logo a seguir a esta nossa conversa. Por isso mesmo quero somente saber se, além desta questão, há mais alguma que queira ver esclarecida antes da nossa decisão?”

Respondi que não e ela pediu-me para sair da sala e aguardar uns minutos do lado de fora junto ao claustro do convento. Saí e lá fora um dia ensolarado ainda se mantinha apesar do frio do mês de dezembro. Nem parecia que dai a duas semanas seria Natal e eu, ali especada a espera que duas pessoas decidam o que será a minha vida nos próximos tempos. Por uns minutos acreditara que poderia mudar o mundo, esquecera que daí a uma hora eu teria que estar no restaurante do sr. Madeira para trabalhar a limpar a louça servida nos almoços e que ao final do dia voltava a assumir a minha nova função de supervisora dos vendedores, tal como vinha a fazer nos últimos dias. Estava absorvida nos meus pensamentos quando de repente sinto uma mão no meu ombro esquerdo. Acordo dos meus pensamentos com um leve susto. Era a srª Teresa a me chamar para que voltasse a entrar na sala para a dura realidade da vida. Segui-a até a entrada da porta e enquanto ela fechava a porta nas minhas costas, mais uma vez via no fundo da sala o dr. Pedro Teixeira e a drª Celestina Cruz sentados. Eles levantaram-se por gentileza e me convidaram a sentar novamente na cadeira a frente deles.

Com um ar muito sério o dr. Pedro Teixeira começa a falar: “Sabe Maria, a quantidade de pré-candidatos que temos já entrevistado e ainda faltam entrevistar é muito grande. Como constava no programa do concurso, somente dez projectos poderão ser aceites no final e nesta fase, iremos escolher quinze projectos para fazer exposição do júri. Gostamos muito do seu projecto e ficamos muito bem impressionado com o potencial que ele demonstra vir a ter. Porém também vimos que há algumas lacunas que não estão bem definidas e que precisam de uma revisão muito profunda para que possa dar certo…”

Pronto, estava fora. Aquele ‘Porém’ tinha dito tudo. Sabia que deveria ter respondido um bairro qualquer. Provavelmente foi isso que fez eles não me escolherem. Comecei a sentir o peso do mundo sobre os meus ombros… estava totalmente distraída e absorvida nos meus pensamentos quando ouço “…por isso queremos muito que continue connosco e prepare uma excelente apresentação para a próxima etapa do processo de seleção.” Como? Balancei a cabeça como se estivesse a acordar e não acreditar, só tive voz para dizer: “fu-fu-fui selecionada?”

Respondeu-me o dr. Pedro “Sim Maria. Foi selecionada para apresentar o seu projecto ao júri, na próxima sexta-feira aqui na Casa do Impacto pelas 14h30. Contamos que faça uma apresentação brilhante. Como disse o seu projecto tem muito potencial.”

Tinha sido selecionada. Não consegui esconder um sorriso de felicidade a olhar para um e para outro como se tivessem me dado um brinquedo novo ou um bombom de chocolate que tanto gosto.

Tinha cerca de 50 horas até voltar a estar novamente na Casa do Impacto. Pior ainda, era que tinha que preparar uma nova apresentação do projecto e conciliar isso com o restaurante e o callcenter. Mais um desafio que teria que vencer, mas não importa, acredito que Deus protege os bem aventurados.

Cumprimentei ambos e saí da sala, parecia que caminhava sobre nuvens de algodão tal era a felicidade que estava a sentir. Passei pela porta que dava para a saída da EAME, passei ao lado do balcão onde a Srª Teresa estava, ela olha para mim e diz: “Parabéns srª Maria. Agora pedia por favor para, assim que tenha a apresentação feita, nos enviar o quanto antes por email para testarmos se fica bem no projector da sala de reuniões. No dia, deverá chegar cá por volta das 14h00 para uma breve introdução que será feita pela drª Celestina Cruz sobre como irá conduzir a apresentação. Boa sorte e até sexta-feira as 14h30.”

Ouvi com atenção, agradeci e sai para a rua. Parei a frente da entrada do Convento de São Pedro de Alcântara, agora intitulado de Casa do Impacto e olhei para o céu azul e sem nuvens que tinha sobre mim. neste momento voltei a me lembrar da frase do imperador Júlio César ‘Alea iacta est’ que para mim, naquele momento só tinha uma única tradução ‘A sorte está lançada’. Que venha o desafio mor.

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Coach Wilques Erlacher

ACC Coach Credenciado pela ICF. Especializado em Coach de Desenvolvimento & Metafórico e Presidente do Conselho Fiscal da ICF Portugal. Há mais de 20 anos que trabalho em funções relacionadas com Marketing, Vendas Corporativas, Desenvolvimento de Negócios, Gestão de Clientes, Formação, Mentoria e Consultoria em Vendas. O meu lema é: “Coaching não é para quem precisa, é para quem quer ser melhor” Os meus contactos são: email: we@wilqueserlacher.com || Skype: w.erlacher || Tel: +351 932 558 558

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