Capitulo XIV – O final do curso. E agora?

Chegamos ao final da segunda semana e escrevo hoje sábado onde foi dia de termos a nossa apresentação final do projecto ao mentores e potenciais investidores. Sim, estes investidores foi uma surpresa para todos nós e foi também um aumentar de tensão para que tudo corra bem já que graças a eles, vamos ter um prémio pecuniário para os três primeiros colocados.

Mas antes de explicar o que aconteceu, tenho de falar desta semana que foi uma autêntica maratona de workshops, formações, trabalhos de grupo e individual. Semana dura que logo na segunda abriu com mais uma sessão de finanças. Nesta segunda volta, trabalhamos novamente o plano de negócio, tendo por base os resultados dos inquéritos de rua e da análise da concorrência que fizemos pela internet. Fiquei muito mais alegre, pois verifiquei que em todos os negócios que analisei, ou eram escolas de formação em costura ou eram lojas de remendos ou simplesmente ateliers de costura a medida. Não encontrei um único que incluísse os três processos. Acredito que o projecto da “Maria Costureirinha” tem viabilidade, mas também fiquei perplexa e assustada com o que poderá ser o meu investimento inicial para conseguir comprar as máquinas e tudo o que é necessário. Estava preocupada com isso. Quando o Jorge me foi buscar, estava apreensiva e com a barriga cheia de borboletas por não saber como arranjar o dinheiro necessário, isso sem contar que ainda nem sabia exatamente onde iria montar o projecto e qual o custo de renda e reforma do espaço.

Fui quase todo o percurso entre Alcântara e Odivelas em silêncio. As poucas respostas que dava ao Jorge eram monossílabos e, na maior parte das vezes, não me lembro sequer o que ele perguntara. Quando chegamos a casa, mais uma vez validei como este homem é bom e sabe como me agradar. Tinha tudo pronto para o nosso jantar. Entramos e ele foi a cozinha para pôr a comida no forno para aquecer. O jantar era empadão de carne com muito puré de batata. Precisava disso, sentia a necessidade de “confort food” para afogar as minhas preocupações.

O jantar decorreu mais uma vez sem grandes emoções, entre olhares perdidos no além, respostas monossílabas e sorrisos amarelos, agradeci o amor e carinho que ele vem tendo comigo mas continuava embrenhada nos meus pensamentos sobre o investimento necessário. Nunca me passou pela cabeça pedir dinheiro emprestado ou mesmo fazer um crédito para arrancar com o negócio, até porque estou na situação de desempregada (ui, já nem me lembrava disso) e que banco iria ser maluco suficiente para dar crédito a alguém que não consegue ter um emprego ou garantias?

Antes de ir para cama, sentamos na sala para ver um pouco de televisão, mas não estava nem um pouco interessada. Foi neste momento que o Jorge desligou a televisão, levantou-se e foi buscar uma cadeira para se sentar a minha frente.

“Maria, sei que estamos juntos a pouco mais de cinco meses, mas acredito que te conheço minimamente para saber que não estas bem. O que se passa?”

Fiquei a olhar para ele sem saber o que responder. Estava cheia de medo e deitar tudo a perder e, até mesmo o Jorge, deixar de se interessar por mim. Não conseguia falar, as borboletas tinham sido substituídas agora por uma pressão no peito e ao olhar para aqueles olhos verdes de frente, foi o suficiente para abrir a torneira em mim e desatar a chorar convulsivamente. Chorava todas as amarguras, inseguranças e medos de dentro de mim. Comigo aos prantos, ele veio se sentar ao meu lado e puxou a minha cabeça para ficar apoiada no seu ombro. Deixou eu chorar tudo o que tinha e dentro de mim. Sentia que estava a deitar fora todas as minhas mágoas e preocupações. Quando parei de chorar, soluçava como se fosse uma criança a quem tinham tirado um brinquedo.

 “Estás mais calma agora?”

Respondi que sim com a cabeça.

“Podes me explicar o que está a acontecer? fiz alguma coisa de errado?”

Desta vez abri a boca e respondi que não tinha nada a ver com ele. Expliquei que tínhamos trabalhado o plano de negócio e que começamos a verificar quais sãos os investimentos iniciais que serão necessários fazer, quais as ameaças que podem contrariar o projecto e principalmente que não conseguia ver onde iria ter a capacidade de obter o dinheiro necessário. Vi que ele iria abrir a boca para dizer qualquer coisa, mas adiantei logo que estava completamente fora de questão ele me emprestar, ceder ou se endividar por minha causa. Disse logo que eu é que tenho de me desenvencilhar sozinha deste imbróglio que me meti.

“Minha querida amiga e mulher que amo, será que me permite eu falar antes de fazeres qualquer juízo de valor?

Respondi que sim, mais uma vez com a cabeça.

“Pareço um disco arranhado, mas mais uma vez vou usar da minha lógica de professor de matemática. Se o assunto são números, então estás a entrar no meu mundo. Deixa-me recordar de uma coisa que me contou quando me falaste o que motivou criares o teu projecto. Tu não disseste que a tua mãe e a tua tia tinham uma loja de costura no Cacém? O que foi feito de todo o material que elas tinham na loja?”

Abri os olhos como se estivesse sido tomada por um arrebatamento de espanto.

“Como é que não me lembrei disso! É verdade, todo o material da loja foi colocado numa daquelas empresas que vendem espaços para guardar tralhas que já não cabem em casa. Lembro o meu pai dizer que, se um dia fosse necessário, venderia, mas que por agora, iria guardar tudo. Não sei o estado em que este material está, mas de certeza que foi bem arrumado. O meu pai não deixava nada desarrumado ou mal feito. Acho que ele colocou isso tudo num armazém ali perto do Hipermercado da Amadora.”

“Bom, partindo mais uma vez da racionalidade, creio que o primeiro passo será amanhã de manhã ligares ao teu pai e procurar saber mais sobre isso, certo?”

Quase caímos ao chão pois dei um pulo em cima do Jorge a beijar o seu rosto todo e sentir que ele era, mais uma vez, um anjo que estava ali para me ajudar.

“Calma, calma. Deixa-me continuar, ainda não acabei. Bom este primeiro passo, mesmo que sendo uma incógnita ainda, é já um passo. Vamos agora aos restantes números. Depois da tua análise, qual foi o valor que estimaste para arranque do projecto e podes, por favor, detalhar um pouquinho mais sobre como chegaste a eles?”

Endireitei-me no sofá, levantei e fui buscar a pasta onde tenho todas as notas que tiro no curso. Abri o caderno onde estava tudo descrito e comecei a listar em voz alta enquanto o Jorge olhava para mim.

Serão necessárias duas máquinas de costura normais, com um valor médio de 450€ cada. Mais uma máquina de arrematar as bainhas que chamam de corta-e-cose, que custa cerca de 600€. Vou precisar de duas mesas grandes para servir de apoio ao corte e modelagem, cada um estimada em 240€, preciso de duas mesas pequenas onde ficarão as maquinas, valor estimado de 160€ pelas duas, cadeiras, um sofá de dois lugares e armários de arrumos são cerca de 460€. Tenho a parte das peças pequenas que entre tesouras, réguas, esquadros e material de uso como linhas e acessórios, serão mais 850€. Assim sendo, para ter o mínimo necessário, vou necessitar de 3450€ sem incluir o balcão na entrada da loja que vai variar de acordo com o tamanho do local a arrendar. Mas isso é só para eu por o conteúdo do projecto. Ainda não consegui fechar o local exacto onde vou montar o negócio. Tenho duas opções disponíveis, uma aqui em Odivelas no bairro do Vale do Forno ou então em Alcântara na Quinta da Cabrinha. Cada um destes locais tem uma coisa em comum, são bairros onde a população tem muita carência e muito desemprego. Ainda não consegui chegar a um consenso.

“Certo. então agora que sabes o montante inicial, consegues te lembrar o que é que a tua mãe e tia tinham na loja?”

“Assim de cabeça, se bem me lembro havia um balcão a separar as duas áreas, na parte de fora duas cadeiras de ferro e madeira, na parte de dentro, duas máquinas de costura, duas corta-e-cose, sendo que uma delas era específica para roupas mais grossas, uma mesa grande, um varão comprido onde penduravam as roupas por tratar e já tratadas, um armário grande onde tinham tecidos, acessórios, linhas, só tesouras eu me lembro que haviam pelo menos umas quatro profissionais e outras tantas de uso corrente, além de pequenos acessórios como candeeiros e mesinhas de apoio.”

“Onde elas tinham as máquinas, sobre a mesa grande?”

“Não. Agora que falas, era uma mesa comprida junto a uma das paredes onde estavam todas elas seguidas e cada uma com uma cadeira a frente.”

“Mais coisas que te lembre?”

“Havia uma caixa registadora, ainda daquelas que saia um talão em papel fininho com a soma do concerto.”

“Bom, esta já não vai ser possível usar, dado que agora tudo tem de ser declarado as finanças no final do mês.”

“Pois.”

“Vês agora como, com um pouco de ginástica mental, acabaste de poupar cerca de 3000€ do teu investimento inicial e com um adicional, levas uma corta-e-cose adicional que não estava nos teus planos?”

“Sim, mas eu não sei qual o estado destas máquinas, provavelmente irão precisar de revisão e já são máquinas antigas. É certo que um arranjo e limpeza nunca será o valor que tinha em mente gastar. Mas sempre será um custo.”

“Agora vamos a outro exercício. Que espaço de loja é que tens em mente?”

“Pelas minhas contas, uma loja com cerca 50 a 70 m2 é mais que suficiente.”

Depois disso, ele se levantou e foi buscar o seu computador portátil e voltou a se sentar ao pé de mim. abriu o browser e fez uma pesquisa do preço de aluguer de espaço quer na Quinta da Cabrinha como em Vale do Forno. No primeiro caso, como é em Lisboa, o valor do metro quadrado ronda os 7€ e no segundo cerca de 4,35€ o metro quadrado. Assim sendo, para uma loja de 50 metros se for em Lisboa são cerca de 350€ se for em Odivelas 217,50€. Já no caso de uma loja de 70 metros em Lisboa serão 490€ e em Odivelas 304,50€.

“Bem, temos aqui uma disparidade de preços que não pode deixar de ser considerada, certo. Assim, se realmente quer optar por lisboa, terá de investir entre 700€ a 980€ que são o primeiro mês e um de caução. Sendo em Odivelas, os valores baixam consideravelmente. Mais uma questão – sou muito questionador – no teu plano de negócio, qual o valor médio de receita diária que será necessário para manter o negócio a funcionar?”

“Pelos meus cálculos, se fizermos cerca de 80€ diários em arranjos e venda, na proporção de 50% para cada mim e 50% para a aluna, descontando o material, será possível manter o negócio a funcionar.”

“Qual o preço médio de cada arranjo?”

“Cerca de 5€.”

“Então a um preço médio, terás de ter cerca de 16 clientes a entrar pela loja todos os dias. Isso não me parece viável, pois não? Ainda mais num negócio que está a abrir e que não tem carteira de cliente ou nome criado no local.”

Continuamos a falar e a fazer cálculos por mais uma hora. Tinha a cabeça totalmente confusa com tantos números e estimativas. Depois de muitos cálculos e de muita perguntas e respostas, chegamos a um entendimento de que o melhor local será mesmo apostar no Vale do Forno, até porque a densidade populacional é 5 vezes maior do que na Quinta da Cabrinha. Para uma segunda-feira estava tudo falado. Agora tinha de ir dormir pois as 07h00 era acordar, preparar o meu almoço e seguir para o curso.

O meu dia amanhecera completamente diferente e com uma nova perspectiva de rumo a tomar. Senti-me mais confiante. Efectivamente o apoio que o Jorge me dá é uma mais valia sem preço. A caminho de Alcântara liguei para o meu pai, e depois de matar algumas saudades já que desde o dia a seguir ao ano novo ainda não tinha estado com ele, combinamos nos encontrar no final do dia. Depois do curso, iríamos até ao Cacém visitá-lo e buscar a chave do depósito onde estão os materiais da loja.

O dia foi duro e com muitas horas a treinar o pitch para os investidores e depois conhecemos a lista de potenciais mentores e coaches que estariam disponíveis para nos ajudar. Independente do trabalho que tivemos de fazer, a minha cabeça não parava de pensar e desejar que chegasse as 20h00 para, junto com o Jorge irmos falar com o meu pai. Custo, mas finalmente saí e corri até ao carro do Jorge, que como habitualmente fazia, estava do outro lado da rua a minha espera. Seguimos e pouco antes das 21h00 estávamos a porta da casa do meu pai. Uma sensação estranha passou pela minha pele. Vivi tanto tempo com eles e cresci naquela casa. Tinha sempre esta sensação ao voltar ali. Era como se nunca tivesse saído. Ainda ouvia na minha cabeça os meus pais a conversarem sobre as dificuldades que passávamos e o duro que ela tinha de dar todos os dias. Como o tempo passa rápido mas as memórias perduram.

Subimos até ao segundo andar pelas escadas pois, sendo um prédio com mais de 60 anos, não era normal terem elevadores. Como era de esperar, o meu pai estava a porta do apartamento a nossa espera agarrado a sua bengala. Aquelas ancas já viram melhores dias. Cumprimentos, beijinhos e abraços dados, entramos e vimos que o meu pai tinha a mesa da sala posta com o jantar pronto a nossa espera. Eu e o Jorge ficamos a olhar sem saber o que dizer. OK, já que estávamos ali e era hora do jantar, porque não? Era um jantar simples, espaguete cozido com bolonhesa de carne picada de porco e vaca. Para acompanhar uma garrafa de vinho daquelas que nem rolha de cortiça tem, são de plástico. Foi um jantar humilde, mas feito com coração e carinho. Jantamos, falamos muito sobre o passado, o Jorge ficou a conhecer um pouco mais o meu pai e principalmente, falamos da minha mãe e do tempo que existiu a loja. Perto das 22h30, o relógio já dava as horas e tínhamos de voltar para casa. Afinal no outro dia, as 07h00 tinha de estar a pé e a preparar tudo para mais um dia de formação. Foi com alguma emoção a marejar os olhos do meu pai que recebemos a chave do depósito. Ele dizia que desde que trancou tudo, nunca mais olhou para a chave ou lá foi. Compreendo, também fiquei emocionada quando nos despedimos e lá recebemos uma chamada de atenção para não deixar passar mais tanto tempo sem o visitar.

Saímos calados da casa do meu pai. Jorge sabia exatamente o que estava a sentir e enquanto nos encaminhávamos para o carro, ele me abraçou pela cintura e me deu um beijinho no rosto. Sorri e retribui com um beijinho na boca.

Na quarta-feira foi dia de saber quem seriam os nossos mentores e/ou coaches que nos acompanhariam no decorrer do processo. A mim calhou um Coach e, para bem da verdade, não faço a menor ideia do que iria fazer com ele. Seguimos com as formações e no final do dia, perto das 17h fomos até a zona de convívio para uma reunião informal onde iriamos conhecer os mentores e coaches que ajudam no projecto. Quando lá chegamos vimos um grupo de cinco pessoas a conversar com o José Marques e a Margarida. Ao nos aproximarmos fomos apresentados ao grupo e depois cada um dos cinco visitantes se apresentou. Foi ai que conheci o meu Coach, de nome Lucas Maurício, um senhor com os seus cinquenta e poucos anos e que só trabalha com processos de para mulheres que tenham um projecto de negócio em curso ou a arrancar. Estivemos a conversar sobre o meu projecto, o meu percurso profissional, como estava a avaliar o projecto ‘adição’ e tudo o que tinha aprendido até então. Simpatizei com ele e fiquei bem impressionada com o percurso profissional dele. Combinamos que nos tratávamos por ‘tu’ e no início não estava muito à vontade, mas lá fui descontraindo. Pelo que entendi, o Lucas no processo que iremos trabalhar, terei direito a dez sessões onde levo as minhas questões, duvidas e problemas e em conjunto iremos traçar um plano de tarefas e formas de ultrapassar estas barreiras. Confesso que não era isso que imaginava que fosse. Achava que ele iria me aconselhar sobre as decisões que estava a tomar, me alertar e sugerir soluções. Será que isso assim vai funcionar? Tenho de aguardar a primeira sessão que só será na semana que vem. Depois da conversa entre todos, tivemos um brinde com uma mesa cheia de acepipes e algumas garrafas de sumo, café e chá. Foi uma excelente forma de terminar mais um dia de trabalho. Pela primeira vez desde que começamos, não havia trabalho de final do dia. Hoje poderia ir para casa mais cedo. Logo que soube disso, liguei para o Jorge e combinamos as 18h ele ir me buscar e arrancarmos para o depósito para avaliar o material que está lá guardado.

As 18h em ponto saí e corri para o carro. Seguimos pela EN17 em direção a Amadora e pouco antes do Hipermercado, viramos a direita e seguimos por uma rua que é paralela a EN17. No final desta rua viramos a direita e demos com umas antigas instalações do datacenter informático de um operador de telecomunicações e ao lado, o local onde são os depósitos alugados. Na portaria pediram as nossas identificações e para que armazém iríamos. A chave indicava o número 57. O porteiro apontou o local onde deveríamos parar o carro e depois por onde iríamos, a pé, até ao armazém. O meu coração batia forte e acelerado no peito. Estava com um misto de alegria por conseguir minimizar os custos iniciais e de medo caso alguma das maquinas ou materiais estivesse estragado. Imaginava que tinha havido uma infiltração e tudo o que estava lá dentro estava enferrujado e destruído. Abrimos o cadeado e empurramos a porta para cima. Para nosso espanto estava tudo bem arrumado, sem nenhum sinal de inundação ou infiltração. Estava tudo bem embalado em caixas, excepto a mesa grande e a outra mais comprida que estavam embaladas com aquelas folhas de plástico cheia de bolhas para proteger. As coisas mais pequenas, como as cadeiras e moveis, também estavam embalados com este plástico. As caixas de papelão estavam assinaladas com o que continham. O Jorge ajudou a tirar uma das caixas onde indicava máquina de costura. Pusemos a caixa no chão e abrimos com cuidado.  Lá dentro estava a máquina perfeitamente embrulhada num plástico com bolhas de ar e, ao primeiro olhar, estava impecavelmente conservada. Sem nenhuma marca ou indicação de estrago. Jorge olha para mim e diz que parecia estar tudo bem. Retiramos outra caixa também assinalada como máquina e o cenário foi o mesmo, tudo bem embalado e com muito bom aspecto. Por fim, abrimos uma caixa que indicava acessórios e lá estavam todas as tesouras e coisas miúdas embrulhadas em plástico e imaculadamente sem nenhum sinal de estrago. Decidimos fechar as caixas e arrumar no local onde retiramos. Por fim, ao fundo estava um dos armários grandes. Retiramos com cuidado o plástico a volta e quando abrimos a porta ficamos com a boca aberta a olhar um para o outro. O armário estava cheio de rolos de tecidos, todos embrulhados em plástico e em pé, um ao lado do outro em perfeito estado de conservação. Eram dezenas de rolos de tecidos de várias cores e tipos. Sorrimos e o Jorge comentou comigo que afinal, a sorte, também ajuda os audazes. Ri-me como uma criança e até me vieram algumas lágrimas aos olhos de emoção. Não estava a acreditar que, mesmo passado tanto tempo, a minha mãe e minha tia iriam contribuir para o arranque do meu negócio.

Fechamos a porta do armário e depois de validar que estava tudo no sítio onde tínhamos encontrado, puxamos a porta para baixo e fechamos o cadeado e fomos para casa. Efectivamente a sorte deu um breve sorriso a minha vida, novamente.

Depois de mais dois dias de formações, já não saíamos tarde do curso. Quinta e sexta foram dias para revermos tudo o que nos foi ensinado, tudo o que fizemos e preparar as apresentações individual dos nossos projectos. Cada um de nós iria ter exactamente 15 minutos para apresentar e depois iríamos ser questionados por mais 15 minutos. Ao final da tarde sairia o resultado das avaliações feitas pelos investidores e jurados escolhidos pelo José Marques.

Eu fui a terceira a apresentar. Antes de mim foi a vez a Lurdes a falar do seu salão ao domicílio, a análise geral do negócio e uma breve descrição do plano de negócio. Depois foi a vez do Carlos falar sobre o projecto de aproveitamento dos produtos em fim de validade nos supermercados e mercearias e como isso depois iria ser aproveitado para confecionar comida para os sem abrigo. As perguntas feitas pelos jurados eram sempre as mesmas. Como pretende manter o seu negócio a funcionar? Qual o grau de dedicação que terá para manter o negócio vivo? Como pensa que o negócio estará a funcionar dentro de dois anos e por fim, qual a forma de financiamento que possui para o arranque do negócio?

Por mais bem preparado que estivéssemos, o nervoso e a tensão do momento faz sempre alguma armadilha. Quer a Lurdes como o Carlos se atrapalharam em algumas das perguntas e isso notou-se na forma como os jurados escreviam nas folhas de avaliação a frente deles após as respostas. Estar a ser avaliado é uma sensação horrível. Sabia disso ao lembrar que, num passado recente, estava numa avaliação onde parecia tudo estar a correr bem e no final fui preterida. Voltava ao mesmo processo, agora mais preparada e com mais apoio, quer seja da equipa do ‘adição’ como principalmente a do Jorge.

Chegara a minha vez. Avancei para o computador onde tinha a minha apresentação, carreguei com o rato sobre ela e a projeção da página inicial aparecia no ecrã atrás de mim. Comecei por me apresentar e indicar o nome do projecto. Estava estipulado que depois desta introdução, deveríamos aguardar o júri dar o ok para iniciarmos. Aguardei cerca de 15 segundos, mas para mim parecia que eram duas horas. A sensação de ter novamente uma quantidade de olhos a nos julgar e, mais duro ainda, não haver interação, fazia a pressão no peito aumentar ainda mais. Aguentei a pressão até ser autorizada. Nos testes, os 15 minutos davam e sobravam para fazer a apresentação. No entanto, ali, agora que estava a ser avaliada, já tinha chegado aos 10 minutos e ainda me faltavam cerca de cinco slides para apresentar. Se apressasse o discurso, iria ser visível a minha pressa. Se deixasse faltar não iria conseguir transmitir a mensagem toda. Continuei em frente e ignorei completamente se daria ou não para chegar ao fim. A apresentação chegou ao fim e queimei cerca de dois minutos. Usei no total 17 minutos para a minha apresentação. Agora ficaria calada até ouvir as questões do júri. A primeira pergunta que me foi feita deixou-me completamente embaralhada. O presidente do júri diz:

“Como se sente depois da sua apresentação?”

Respondi que bem, um pouco mais aliviada e agradeci a preocupação.

“Como acha que devemos avaliar o facto de ter ultrapassado em dois minutos o seu tempo disponível?”

Gelei. Pensava que eles não tinham notado, mas ali estava eu a ser confrontada com o meu erro. Contei mentalmente até dez e respondi.

“Sinceramente, sinto-me bem. Se tivesse apressado o discurso ou terminado o mesmo dentro do tempo que tinha, não conseguiria passar a mensagem como deve ser. Achei mais importante transmitir tudo o que tinha a dizer.”

O presidente do júri olhou para mim, olhou para os outros membros do júri, tomou algumas notas e por fim agradeceu a minha resposta. Depois disso vieram as mesmas perguntas que tinham sido feitas a Lurdes e ao Carlos. Como já tinha visto onde eles tinham derrapado, tomei o cuidado de não cometer o mesmo erro. Respondi a todas as questões e no final cumprimos os 30 minutos que estavam destinados a minha apresentação. Senti orgulho pela forma como respondi as questões sem medo e sem hesitação. Acho que aquelas duas perguntas iniciais, fora do contexto, deram-me a calma para responder as restantes.

Depois das duas outras apresentações feitas pela Katia e pelo Mário com o Miguel, saímos todos da sala para aguardar a decisão do júri. Mais uma vez a ansiedade e nervosismo tomou conta de todos nós. Não havia como ficar calmo numa situação de avaliação onde estava em causa o prémio do curso e ainda a possibilidade de ter um investidor a financiar uma parte do projecto. Fomos chamados de volta a sala e sentamos nos bancos que estavam indicados para nós. O primeiro a falar foi o José Marques onde agradeceu a presença de todos e fez um breve resumo do percurso do que foi a formação nas duas semanas. Todos nós estávamos impacientes e desejosos de conhecer o resultado. Aquela lengalenga era uma tortura. Depois do José Marques foi a vez do presidente do júri falar, agradecer as excelentes apresentações feitas por nós e enaltecer o benefício que iniciativas como o ‘adição’ tem para o tecido empresarial português. Mais lengalenga. Continuou a agradecer a oportunidade de presidir a mesa de júri e que de seguida iria apresentar o resultado final. Começamos todos a ficar com formigas no rabo e a nos olhar uns para os outros. Em surdina desejávamos boa sorte. Por fim o presidente do júri começa:

“Em nome da mesa de júri aqui composta, após análise detalhada de cada um dos 5 projectos aqui apresentados, encontramos os 3 projectos que, na nossa opinião, tem mais possibilidade de continuidade. O prémio que está estipulado para esta edição, são respectivamente de 500€ para o terceiro classificado, 1000€ para o segundo classificado e de 2500€ para o primeiro. Este prémio trás com ele uma responsabilidade, visto que ele deve ser usado integralmente para conseguir por o projecto a funcionar dentro dos próximos três meses, caso contrário terão de devolver o dinheiro na sua totalidade. Os critérios que mais valorizamos na nossa tomada de decisão foram em primeiro lugar a capacidade de financiamento próprio do negócio, em segundo a viabilidade do mesmo e do seu plano e por fim, a capacidade e desenvoltura na apresentação. Acreditamos que a forma como vocês, empreendedores partilham a vossa ideia, vontade de querer ter o seu próprio negócio e por fim contribuir para o desenvolvimento de uma comunidade desfavorecida, tem muito força. Cada um de vocês assim o fez e é nosso querer que não percam esta força de vontade e determinação. Para os dois projectos que hoje não foram escolhidos, queremos dar uma palavra de apreço e pedir que não desistam. O facto de não terem sido selecionados, não quer dizer que o projecto não é viável ou que não pode ser criado. Pelo contrário, deverão ver isso somente como um ligeiro percalço no processo e não desistirem. Pedimos por favor, que não deixem esmorecer a vossa determinação e vontade. Assim sendo e sem mais delongas, pois vejo que estão todos nervosos, a nossa decisão foi em terceiro lugar o projecto do sr. Carlos Torino, para o reaproveitamento de produtos alimentares.”

Nesta altura todos aplaudimos e vimos o Carlos se levantar e ir até a mesa do júri e cumprimentar a todos. Na mesma oportunidade, o José Marques e o presidente do júri saíram para a frente da mesa e com o Carlos ao meio, tiraram uma foto com ele a segurar um cheque gigante a indicar o terceiro lugar no valor de 500€. De seguida o presidente do júri continuou.

“Agora que já conhecemos o terceiro lugar, é altura de atribuirmos o segundo prémio ao projecto da Srª Kátia Santos.”

Mais uma vez aplaudimos a decisão e na sequencia foi tudo igual ao que tinha acontecido com o Carlos, onde cumprimentaram e depois a foto de praxe, agora com um cheque de 1000€. Agora era hora de conhecer o primeiro lugar.

“Chegamos então ao momento maior do nosso evento onde iremos conhecer o primeiro colocado. Mais uma vez, encorajo os dois outros projectos a não esmorecerem. Assim sendo, que rufem os tambores pois o primeiro lugar vai para o projecto da Srª Maria Conceição.”

Pela segunda vez no dia gelei com a emoção. Tinha sido a vencedora do concurso. Pela primeira vez na minha vida algo que acredito tem o poder de se tornar realidade. Ali estava eu, sentada com os meus colegas a me circundar. Levantei e ao mesmo tempo que estava ainda atarantada ao ouvir o meu nome, os meus colegas me davam beijinhos e cumprimentavam. Quase de forma robótica encaminhei em direção da mesa e estendi a mão ao presidente. Neste momento o José Marques saiu detrás da mesa e veio me cumprimentar com dois beijinhos e me deu um abraço.

“Parabéns Maria. O seu projecto e o grande vencedor e foi impressionante a forma como respondeu as questões e como apresentou o seu projecto. Você merece mesmo este prémio. Ele é fruto do teu trabalho e dedicação nestas duas ultimas semanas. Parabéns mesmo.”

Tudo o que aconteceu de seguida, os cumprimentos, as fotos e até mesmo o convívio que tivemos a seguir não tinham ainda entrado na minha cabeça. A sensação de ter sido escolhida e ter vencido, mais do que o dinheiro – que vai ser muito importante – é o facto de ver a sorte, mais uma vez, sorrir para mim.

Nada estava terminado, pelo contrário nada tinha iniciado. Agora era o momento de sair da nuvem que foram estas duas semanas de formação e descer para o inferno da luta diária para conseguir por o projecto a funcionar. Afinal o prémio está indexado a um prazo de três meses para o pôr a funcionar. Só pensava na hora de sair dali, correr para o carro do Jorge e lhe contar que fui a vencedora. Agora começa uma nova jornada e será a minha primeira sessão de coaching numero um com o Lucas, já na próxima quarta-feira.

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    Coach Wilques Erlacher

    ACC Coach Credenciado pela ICF. Especializado em Coach de Desenvolvimento & Metafórico e Presidente do Conselho Fiscal da ICF Portugal. Há mais de 20 anos que trabalho em funções relacionadas com Marketing, Vendas Corporativas, Desenvolvimento de Negócios, Gestão de Clientes, Formação, Mentoria e Consultoria em Vendas. O meu lema é: “Coaching não é para quem precisa, é para quem quer ser melhor” Os meus contactos são: email: we@wilqueserlacher.com || Skype: w.erlacher || Tel: +351 932 558 558

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